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Questão FC387263

Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir. A linguagem performática dos possuídos realizadores Ninguém sabe, exatamente, quando uma legião de brasileiros descobriu qu

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

Instituto Consulplan · 2025

Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir.  

 

A linguagem performática dos possuídos realizadores

 

Ninguém sabe, exatamente, quando uma legião de brasileiros descobriu que já não era mais possível ter alguma coisa. Passaram a “possuir”. Também deixaram de fazer. Querem “realizar”. Para essa gente, oferecer, dar, emprestar, nenhum desses atos generosos sobreviveu à mania contemporânea de “disponibilizar”. A língua encheu-se de calos, pela dificuldade de falar palavras simples e diretas, velhas companheiras – exiladas, agora, por uma inexplicável(C) doença semântica.

 

A moléstia, contagiosa, é agravada pelos anglicismos selvagens de gente desacostumada a ler em português, ou exposta em excesso a obras dolorosamente mal traduzidas. Sintomas comuns dessa necrose linguística são o uso de “escalar”, não para montanhas, mas para expressar aumento ou amplificação de alguma coisa; a manifestação do desejo mórbido de “realizar” no lugar de “compreender”; a incapacidade paranoica de começar alguma ação sem o anúncio de que vai “estartar” a pobrezinha(B).

 

Andam criando remédios para essa pandemia, que pede também injeções de sensatez e doses terapêuticas de bons livros e autores de qualidade. Em Brasília, mesmo, já se pode consultar o Manual de Linguagem Simples, de Patrícia Roedel, lançado há poucos dias – e em boa hora – pela Câmara dos Deputados, a exemplo de outros manuais do gênero criados pelo serviço público em vários estados. É torcer para o sucesso dessa tentativa de transfusão(A) do bom senso.

 

O elixir salvador, receitado pelo manual: escreva e fale para que entendam facilmente que diabos você quer dizer. Parece óbvio. Mas diga isso a quem redigiu um pedido de habeas corpus, encontrado pelas advogadas Danielle Serafino e Mariana Zonari, nesses termos: “o édito prisional hostilizado entremostra-se(D) baldo de fundamentação, venia maxima concessa, de sua ilustre subscritora...”

 

No país que guarda até hoje traços da Casa grande & senzala, falar enrolado sempre foi um modo de cobrar distinção. Não à toa, no Judiciário, onde até hoje existe elevador exclusivo para “eminentes magistrados”, a linguagem tortuosa desfila de queixo erguido e peito estufado. É uma felicidade ver escal..., digo, ganhar impulso o esforço para simplificar a comunicação em lugares como esse.

 

As estrepolias beletristas do juridiquês deixam no chinelo a fala empolada, que, hoje em dia, nunca “usa”, só “utiliza”, e não desempenha mais, porque prefere “performar”. Tribunais gostam de ser chamados “egrégias cortes”, e, ao lhe impor textos incompreensíveis, desculpam-se com “data venia” e “elevada estima e consideração”. Mas vão além: ao entrar no Supremo Tribunal, você descobre, por exemplo, que chegou, segundo digníssimos advogados, ao “pretório excelso”.

 

Barbaridade. Isso não é nome de alguma entidade mitológica, como o tal do “mesmo”, o ser misterioso citado nas placas de certos corredores, que devemos verificar se está parado, quem sabe nos espreitando, antes de pegar o elevador. Esse Pretório Excelso existe mesmo, pode perguntar nos tribunais. E, a depender do que anda fazendo, ele um dia pode botar as mãos em você.

 

(Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/revista-do-correio/. Acesso em: maio de 2025.

 

O termo “estartar”  é um neologismo criado a partir do processo de formação de palavra semelhante ao de:

  1. “transfusão”.
  2. “pobrezinha” .
  3. “inexplicável” .
  4. “entremostra-se.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Estartar é formado por adaptação de um radical estrangeiro (start) com acréscimo bem característico da língua: a vogal epentética e- para facilitar a pronúncia e o sufixo verbal -ar. Ou seja, trata‑se de sufixação derivacional (com ajuste fonético) que transforma um lexema em verbo.

De modo análogo, pobrezinha resulta de sufixação do adjetivo pobre com o diminutivo -zinha. Há uma adaptação fonética entre a base e o sufixo (aparecimento de -z- como elemento de ligação), mas a operação essencial é a mesma: afixação que gera uma nova palavra com valor diminutivo.

Portanto, ambos exemplificam a formação por afixação (sufixação), com eventuais ajustes sonoros para integração do sufixo.

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