Questão FC387274
Uma vida ao lado Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho. Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar. S
Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))
Instituto Consulplan · 2025
Uma vida ao lado
Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho.
Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar.
Sabia-lhe o banho, as refeições, as horas de repouso. A cada gesto, um som. E no som, recriado, o via mover-se em geometrias idênticas às suas. A sala, o quarto, o corredor.
Cada vez mais ligava-se ao vizinho, absorvendo seus hábitos. Ouvia bater de louças e se apressava à cozinha, vinham vozes moduladas e ligava a televisão. À noite só conseguia dormir depois do baque dos sapatos do outro, o ranger da cama assinalando que se metera entre lençóis.
Perdia-o, porém, quando saía porta afora. Passos, tinir de chaves, lá se ia o vizinho. Sem ele, vazios a sala e o quarto, a parede emudecia, separando silêncios.
Voltava ao fim do dia, pontual. Passos, tinir de chaves. Ele então acendia a luz ao estalar do interruptor do outro, e juntos punham a casa em andamento.
Tentava, às vezes, seguir-lhe as andanças. Espiava pelo olho mágico estudando a paciência com que esperava o elevador, postava-se à janela para ver que direção tomava, em que ônibus subia.
E, justamente numa tarde em que espreitava, viu o outro atravessar em má hora a rua movimentada, hesitar, correr e ser atropelado por um furgão.
Percebeu que precisava trabalhar rápido. Sem hesitar, arrancou as portas dos armários, as cortinas, pegou a caixa de ferramentas, e começou a serrar, lixar, bater, colar.
Tudo estava pronto quando ouviu o caixão do outro chegar para o velório. Sobre a mesa da sala, na exata posição em que o do vizinho deveria estar, colocou seu próprio caixão. Depois abriu a porta de par em par e, vestido no terno azul-marinho, deitou-se cruzando as mãos sobre o peito.
Ainda teve tempo de pensar que tinha esquecido de engraxar os sapatos. E já os primeiros visitantes começavam a chegar, entrando com a mesma tristeza nos dois apartamentos, para prantear defuntos tão iguais.
(COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgado. Rio de Janeiro: Rocco. 1986.)
Sobre a relação do narrador com o vizinho, é possível inferir que:
- É marcada por um silêncio constrangedor, uma obsessão intratável e infinita.
- Trata-se de um sincronismo constante, uma devoção contínua e que perdura.
- É de um olhar atento; uma imitação, pois o narrador assimila os hábitos do vizinho.
- Está tomada por sonhos e ilusões, pois parte da vida do narrador encontra-se ausente.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
O enunciado aponta que a relação é de olhar atento e imitação. Desde o início, o narrador percebe minuciosamente os ruídos — banho, refeições, passos — e transforma esses sons em informação sobre a rotina do vizinho.
Essa observação constante leva à assimilação: ele passa a reproduzir gestos e horários (acende a luz ao mesmo tempo, só dorme depois do barulho dos sapatos), busca seguir o vizinho e incorpora seus hábitos ao ponto de confundir fronteiras entre os lares.
O gesto extremo de construir um caixão e deitar-se no lugar do outro revela a identificação total, consequência lógica da imitação contínua. Assim, a alternativa resume com precisão a relação descrita — vigilância que vira reprodução dos costumes alheios.
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