Questão FC387277
Uma vida ao lado Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho. Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar. S
Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))
Instituto Consulplan · 2025
Uma vida ao lado
Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho.
Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar.
Sabia-lhe o banho, as refeições, as horas de repouso. A cada gesto, um som. E no som, recriado, o via mover-se em geometrias idênticas às suas. A sala, o quarto, o corredor.
Cada vez mais ligava-se ao vizinho, absorvendo seus hábitos. Ouvia bater de louças e se apressava à cozinha, vinham vozes moduladas e ligava a televisão. À noite só conseguia dormir depois do baque dos sapatos do outro, o ranger da cama assinalando que se metera entre lençóis.
Perdia-o, porém, quando saía porta afora. Passos, tinir de chaves, lá se ia o vizinho. Sem ele, vazios a sala e o quarto, a parede emudecia, separando silêncios.
Voltava ao fim do dia, pontual. Passos, tinir de chaves. Ele então acendia a luz ao estalar do interruptor do outro, e juntos punham a casa em andamento.
Tentava, às vezes, seguir-lhe as andanças. Espiava pelo olho mágico estudando a paciência com que esperava o elevador, postava-se à janela para ver que direção tomava, em que ônibus subia.
E, justamente numa tarde em que espreitava, viu o outro atravessar em má hora a rua movimentada, hesitar, correr e ser atropelado por um furgão.
Percebeu que precisava trabalhar rápido. Sem hesitar, arrancou as portas dos armários, as cortinas, pegou a caixa de ferramentas, e começou a serrar, lixar, bater, colar.
Tudo estava pronto quando ouviu o caixão do outro chegar para o velório. Sobre a mesa da sala, na exata posição em que o do vizinho deveria estar, colocou seu próprio caixão. Depois abriu a porta de par em par e, vestido no terno azul-marinho, deitou-se cruzando as mãos sobre o peito.
Ainda teve tempo de pensar que tinha esquecido de engraxar os sapatos. E já os primeiros visitantes começavam a chegar, entrando com a mesma tristeza nos dois apartamentos, para prantear defuntos tão iguais.
(COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgado. Rio de Janeiro: Rocco. 1986.)
Em “Cada vez mais ligava-se ao vizinho, absorvendo seus hábitos.” (4º§), a locução adverbial destacada denota:
- O encerramento de uma sequência de eventos.
- Um crescimento mútuo em algum tempo futuro.
- Uma tendência ou algo que está se tornando mais frequente.
- Algo que já foi dito, adicionando um novo ponto ou argumento.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Certo
Comentário do professor
Cada vez mais funciona aqui como uma locução adverbial que indica progressividade: mostra que a ação de ligar‑se ao vizinho não é pontual, mas aumenta com o tempo. Em outras palavras, trata‑se de uma tendência, algo que ocorre com maior frequência ou intensidade à medida que a narrativa avança.
No contexto, o narrador passa de estranhamento a dependência: os hábitos do vizinho deixam de ser eventuais sons percebidos para se tornarem referências constantes. A expressão marca essa mudança gradual — não apenas que algo ocorreu, mas que foi se tornando mais presente.
Portanto, a locução sublinha o caráter crescente da ação, indicando repetição e amplificação temporal, ou seja, uma frequência crescente.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em