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Questão FC387278

Uma vida ao lado Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho. Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar. S

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

Instituto Consulplan · 2025

Uma vida ao lado

 

Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho.

 

Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar.

 

Sabia-lhe o banho, as refeições, as horas de repouso. a) A cada gesto, um som. E no som, recriado, o via mover-se em geometrias idênticas às suas. A sala, o quarto, o corredor.

 

Cada vez mais ligava-se ao vizinho, absorvendo seus hábitos. c) Ouvia bater de louças e se apressava à cozinha, vinham vozes moduladas e ligava a televisão. À noite só conseguia dormir depois do baque dos sapatos do outro, o ranger da cama assinalando que se metera entre lençóis.

 

Perdia-o, porém, quando saía porta afora. Passos, tinir de chaves, lá se ia o vizinho. Sem ele, vazios a sala e o quarto, a parede emudecia, separando silêncios.

 

Voltava ao fim do dia, pontual. Passos, tinir de chaves. Ele então acendia a luz ao estalar do interruptor do outro, e juntos punham a casa em andamento.

 

Tentava, às vezes, seguir-lhe as andanças. Espiava pelo olho mágico estudando a paciência com que esperava o elevador, postava-se à janela para ver que direção tomava, em que ônibus subia.

 

E, justamente numa tarde em que espreitava, viu o outro atravessar em má hora a rua movimentada, hesitar, correr e ser atropelado por um furgão.

 

Percebeu que precisava trabalhar rápido. Sem hesitar, arrancou as portas dos armários, as cortinas, b) pegou a caixa de ferramentas, e começou a serrar, lixar, bater, colar.

 

Tudo estava pronto quando ouviu o caixão do outro chegar para o velório. Sobre a mesa da sala, na exata posição em que o do vizinho deveria estar, colocou seu próprio caixão. Depois abriu a porta de par em par e, vestido no terno azul-marinho, deitou-se cruzando as mãos sobre o peito.

 

Ainda teve tempo de pensar que tinha esquecido de engraxar os sapatos. E já os primeiros visitantes começavam a chegar, entrando com a mesma tristeza nos dois apartamentos, para prantear defuntos tão iguais. d)

 

(COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgado. Rio de Janeiro: Rocco. 1986.)

 

Tendo em vista o emprego da expressão destacada, assinale a alternativa em que a sua substituição provoca alteração do sentido evidenciado originalmente no texto.

  1. “Sabia-lhe o banho, as refeições, as horas de repouso.” (3º§) – descanso.
  2. “Sem hesitar, arrancou as portas dos armários, as cortinas, [...]” (9º§) – queixar-se.
  3. “Cada vez mais ligava-se ao vizinho, absorvendo seus hábitos.” (4º§) – assimilando.
  4. “[...] entrando com a mesma tristeza nos dois apartamentos, para prantear defuntos tão iguais.” (11º§) – chorar.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Sem hesitar funciona aqui como uma locução prepositiva que indica modo — rapidez e decisão diante da emergência: ele age imediatamente, sem dúvidas.


Substituir por queixar‑se altera o sentido: passa a expressar manifestação de descontentamento, não a maneira como a ação é executada.


Há também perda de coerência sintática e semântica: Sem hesitar é compatível com os verbos seguintes ("pegou", "começou"), enquanto queixar‑se torna a sequência estranha — sugeriria que o personagem se lamentou antes de proceder, mudando sua atitude.


Assim, a troca modifica a caracterização do sujeito e a natureza da ação, comprometendo o sentido original do trecho.

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