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Questão FC387279

Uma vida ao lado Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho. Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar. S

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

Instituto Consulplan · 2025

Uma vida ao lado

 

Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho.

 

Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar.

 

Sabia-lhe o banho, as refeições, as horas de repouso. A cada gesto, um som. E no som, recriado, o via mover-se em geometrias idênticas às suas. A sala, o quarto, o corredor.

 

Cada vez mais ligava-se ao vizinho, absorvendo seus hábitos. Ouvia bater de louças e se apressava à cozinha, vinham vozes moduladas e ligava a televisão. À noite só conseguia dormir depois do baque dos sapatos do outro, o ranger da cama assinalando que se metera entre lençóis.

 

Perdia-o, porém, quando saía porta afora. Passos, tinir de chaves, lá se ia o vizinho. Sem ele, vazios a sala e o quarto, a parede emudecia, separando silêncios.

 

Voltava ao fim do dia, pontual. Passos, tinir de chaves. Ele então acendia a luz ao estalar do interruptor do outro, e juntos punham a casa em andamento.

 

Tentava, às vezes, seguir-lhe as andanças. Espiava pelo olho mágico estudando a paciência com que esperava o elevador, postava-se à janela para ver que direção tomava, em que ônibus subia.

 

E, justamente numa tarde em que espreitava, viu o outro atravessar em má hora a rua movimentada, hesitar, correr e ser atropelado por um furgão.

 

Percebeu que precisava trabalhar rápido. Sem hesitar, arrancou as portas dos armários, as cortinas, pegou a caixa de ferramentas, e começou a serrar, lixar, bater, colar.

 

Tudo estava pronto quando ouviu o caixão do outro chegar para o velório. Sobre a mesa da sala, na exata posição em que o do vizinho deveria estar, colocou seu próprio caixão. Depois abriu a porta de par em par e, vestido no terno azul-marinho, deitou-se cruzando as mãos sobre o peito.

 

Ainda teve tempo de pensar que tinha esquecido de engraxar os sapatos. E já os primeiros visitantes começavam a chegar, entrando com a mesma tristeza nos dois apartamentos, para prantear defuntos tão iguais.

 

(COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgado. Rio de Janeiro: Rocco. 1986.)

 

Assinale, a seguir, a correlação estabelecida entre o título do texto de Marina Colasanti – “Uma vida ao lado” – com o conteúdo textual apresentado.

  1. A vida como gostaríamos que fosse, com base em desejos, sonhos e expectativas a partir de nossa perspectiva e experiência.
  2. Um sentimento de conflito ou tensão, pois, muitas vezes, a vida que é vivida não corresponde à vida que se deseja ter ou que se imagina.
  3. A complexidade da experiência humana sobre a relação entre a vida real e a busca de um propósito, podendo gerar demasiada satisfação.
  4. A busca pelo significado da existência humana que envolve a tentativa de conciliar uma vida idealizada – a vivida pelo vizinho – com a sua própria vida.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A expressão "Uma vida ao lado" funciona aqui em duplo plano: além da proximidade física indicada pela parede fina, aponta para uma busca existencial — o narrador não apenas ouve o vizinho, mas passa a imitar seus gestos e ritmos, transformando-os em modelo de uma vida idealizada.

Os elementos do texto (sons cotidianos, “geometrias idênticas”, o espiar pelo olho mágico) mostram a progressiva apropriação de hábitos alheios. A morte do vizinho desencadeia a decisão extrema de encenar a morte e vestir a identidade do outro, gesto que revela a tentativa de conciliar e incorporar essa vida ideal à sua própria.

Assim, o título sintetiza a temática central: a proximidade que vira espelho, e a busca por sentido na fusão entre o eu e o outro — uma tentativa de resolver a crise de identidade através da imitação e do ritual.

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