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Questão FC387283

Uma vida ao lado Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho. Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar. S

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

Instituto Consulplan · 2025

Uma vida ao lado

 

Fina, a parede. E, além dela, a vida do vizinho.

 

Irritante a princípio. Ruídos, pancadas, tosse, tudo interferindo, infiltrando-se. Depois, aos poucos, familiar.

 

Sabia-lhe o banho, as refeições, as horas de repouso. A cada gesto, um som. a) E no som, recriado, o via mover-se em geometrias idênticas às suas. A sala, o quarto, o corredor.

 

Cada vez mais ligava-se ao vizinho, absorvendo seus hábitos. Ouvia bater de louças e se apressava à cozinha, vinham vozes moduladas e ligava a televisão. À noite só conseguia dormir depois do baque dos sapatos do outro, o ranger da cama assinalando que se metera entre lençóis.

 

Perdia-o, porém, quando saía porta afora. Passos, tinir de chaves, lá se ia o vizinho. Sem ele, vazios a sala e o quarto, a parede emudecia, separando silêncios.

 

Voltava ao fim do dia, pontual. Passos, tinir de chaves. Ele então acendia a luz ao estalar do interruptor do outro, e juntos punham a casa em andamento.

 

Tentava, às vezes, seguir-lhe as andanças. d) Espiava pelo olho mágico estudando a paciência com que esperava o elevador, postava-se à janela para ver que direção tomava, em que ônibus subia.

 

E, justamente numa tarde em que espreitava, viu o outro atravessar em má hora a rua movimentada, hesitar, correr e ser atropelado por um furgão.

 

Percebeu que precisava trabalhar rápido. c) Sem hesitar, arrancou as portas dos armários, as cortinas, pegou a caixa de ferramentas, e começou a serrar, lixar, bater, colar.

 

Tudo estava pronto quando ouviu o caixão do outro chegar para o velório. Sobre a mesa da sala, na exata posição em que o do vizinho deveria estar, colocou seu próprio caixão. Depois abriu a porta de par em par e, vestido no terno azul-marinho, deitou-se cruzando as mãos sobre o peito.

 

Ainda teve tempo de pensar que tinha esquecido de engraxar os sapatos. E já os primeiros visitantes começavam a chegar, entrando com a mesma tristeza nos dois apartamentos, para prantear defuntos tão iguais. b)

 

(COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgado. Rio de Janeiro: Rocco. 1986.)

 

A intensificação trata-se do processo de reforçar ou aumentar a força ou grau de algo, seja uma ação, uma qualidade, uma emoção ou um conceito. Considerando que isso pode ser feito através de diversas estratégias linguísticas, assinale, a seguir, a transcrição textual que evidencia uma intensificação.

  1. “A cada gesto, um som.” (3º§)
  2. “[...] para prantear defuntos tão iguais.” (11º§)
  3. “Percebeu que precisava trabalhar rápido.” (9º§)
  4. “Tentava, às vezes, seguir-lhe as andanças.” (7º§)
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Gabarito

B

Comentário do professor

“tão” funciona aqui como advérbio de intensidade, ou seja, modifica o grau da qualidade expressa pelo adjetivo iguais. Em «para prantear defuntos tão iguais», o termo eleva a noção de semelhança, indicando que a igualdade entre os mortos é acentuada.

Na análise sintática, tão atua como adjunto adverbial de intensidade, ligado diretamente ao predicativo ou ao núcleo do sintagma adjetival iguais, aumentando sua força semântica.

Do ponto de vista estilístico, essa intensificação reforça o efeito de espelhamento e ironia do texto: não só os corpos são semelhantes, mas a percepção dos visitantes e a identidade narrativa se dissolvem nessa igualdade extrema.

Portanto, a expressão evidencia intensificação ao amplificar a qualidade (igualdade), produzindo impacto semântico e reforçando o sentido temático do conto.

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