Questão FC387288
Leia o texto a seguir para responder a questão abaixo. Um cão, apenas Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borb
Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))
Instituto Consulplan · 2025
Leia o texto a seguir para responder a questão abaixo.
Um cão, apenas
Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito –, eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pelo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas. Com um grande esforço, acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem...
Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.
Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens.
Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu. Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
(MEIRELES, Cecília. Inéditos – Crônicas. Rio de Janeiro: Editora Bloch, 1967.)
A temática principal da crônica de Cecília Meireles em análise é:
- Os cuidados necessários com a saúde dos animais.
- A velhice e a solidão – inevitáveis a todos os seres.
- O distanciamento entre a mocidade e a maturidade.
- A resiliência manifestada pelo ser humano ao alcançar a velhice.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa aponta como tema central a velhice e a solidão vistas como experiências universais e inevitáveis.
No texto, o cão é descrito com traços de envelhecimento — corpo ferido, mechas gastas, um olhar “como o das pessoas muito idosas” — o que simboliza a condição humana em fase final da vida.
O narrador registra a impotência de socorrer e guarda “até o fim da vida” a imagem do animal, transformando o episódio em reflexão sobre a inevitabilidade do declínio e do isolamento.
Elementos como a escada, o patamar e a saída pela rua reforçam a marcha solitária rumo ao fim; a cena associa dignidade e abandono, sem solução imediata.
Assim, a crônica universaliza o episódio: o cão funciona como metáfora da universalidade da velhice e da solidão que, em maior ou menor grau, atingem todos os seres.
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