Questão FC387294
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))
Instituto Consulplan · 2025
Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir.
Caso de canário
Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:
– Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho.
Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.
– Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?
– Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom, vá.
O sogro e a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:
– Vai, meu bem.
Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona e dói ver a lenta agonia de um ser tão precioso, que viveu para cantar.
– Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa. Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico.
Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.
E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.
Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse, ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.
No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.
– Ui!
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
– Ele estava precisando mesmo era de éter – concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.
(DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.)
Em relação ao texto lido, assinale a afirmativa INCORRETA.
- O canário era como uma pessoa da família: todos lhe queriam bem, como a uma criatura humana.
- Na crônica, o personagem escolhido para matar o canário é intitulado de “sacrificador” e “estrangulador”.
- Os sogros e a esposa escolheram o rapaz para realizar o sacrifício porque ele, sendo novo na família, ainda não tivera tempo de se afeiçoar ao canário.
- O jovem marido, com contentamento, considerou o sacrifício do canário como uma obra de misericórdia, pois abreviar o sofrimento do canário é um ato de compaixão.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A afirmativa é incorreta porque contraria a voz narrativa do texto: o marido não age com contentamento, mas sim com repugnância e constrangimento.
O próprio narrador registra expressões como “com repugnância”, que ele se sentiu “pequenino por dentro, angustiado” e que via a condição humana “uma droga”. Esses trechos mostram que o ato foi vivido como sofrimento pessoal, não como satisfação.
Embora o marido tente minimizar o sofrimento do pássaro (usa éter e um gesto rápido), isso demonstra intenção de evitar dor, não alegria em praticar a ação. Logo, afirmar que ele considerou o sacrifício com contentamento é incompatível com os elementos textuais.
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