Questão FC387296
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))
Instituto Consulplan · 2025
Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir.
Caso de canário
Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:
– Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho.
Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.
– Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?
– Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom, vá.
O sogro e a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:
– Vai, meu bem.
Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona e dói ver a lenta agonia de um ser tão precioso, que viveu para cantar.
– Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa. Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico.
Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.
E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.
Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse, ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.
No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.
– Ui!
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
– Ele estava precisando mesmo era de éter – concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.
(DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.)
Considerando a estrutura e o conteúdo textual evidenciados, é possível inferir que a crônica é um exemplo de:
- Relato com linguagem simples e coloquial, abordando tema do cotidiano de forma leve e descontraída.
- Apresentação de acontecimentos e situações com o objetivo de convencer o leitor sobre a finitude da vida.
- Esclarecimento sobre uma situação que gera uma considerável reflexão social e sua provável consequência.
- Resenha que reflete sobre o comportamento humano em uma sociedade marcada por um processo de transformação.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa aponta que se trata de um relato com linguagem simples e coloquial, o que se justifica pelo vocabulário direto e pelas marcas do discurso oral (expressões como “vai ver”, “ui!”, diálogos informais).
O enredo apresenta um episódio do cotidiano doméstico — a família, o canário, a cozinha — tratado sem solenidade, destacando situações corriqueiras.
O tom é leve e descontraído: apesar do tema aparentemente dramático, o narrador usa ironia e humor para suavizar a ação (a “morte” e a ressurreição do pássaro), típico da crônica.
Elementos como brevidade, foco em detalhe anedótico e presença de diálogo reforçam a identificação com a crônica coloquial, confirmando, assim, a alternativa.
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