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Questão FC387318

Leia o texto abaixo para responder à questão abaixo. Debaixo da ponte Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava alu

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

Instituto Consulplan · 2025

Leia o texto abaixo para responder à questão abaixo.

Debaixo da ponte

 

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio; a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta d’água, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.

 

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho.

 

Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne.

 

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe frequentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.

 

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte. Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

 

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.

 

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Debaixo da ponte. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1967, p. 896-897.)

 

O objetivo do texto é:

  1. Contar uma história sobre acontecimentos do cotidiano, misturando realidade com ficção.
  2. Divulgar sobre a urgência de se conhecer a procedência dos alimentos aos principais setores sociais.
  3. Informar quantas pessoas se encontram em situação de vulnerabilidade devido às condições de extrema pobreza.
  4. Apresentar as principais práticas que deverão ser aplicadas pela população para diminuir a moradia debaixo das pontes.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Contar uma história sobre acontecimentos do cotidiano, mesclando real e ficção. O texto narra, em ordem cronológica, vidas sob a ponte, a chegada do amigo, a descoberta da posta de carne, a busca pelo sal e as dores que levam à morte — ações simples, concretas e verossímeis que sustentam o realismo da narrativa.

Ao mesmo tempo, há elementos que deslocam a cena para a ficção ou para a fábula: a ambiguidade do sal que seria soda cáustica, a generalização moralizadora (“há duas vagas debaixo da ponte”) e o tom irônico do narrador. Esses recursos transformam o episódio cotidiano em relato com efeito simbólico.

Portanto, o objetivo é relatar um episódio comum com detalhes realistas e, por meio de artifícios literários, criar um enredo com carga ficcional e crítica.

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