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Questão FC387351

A piscina Era uma esplêndida residência, na Lagoa Rodrigo de Freitas, cercada de jardins e tendo ao lado uma bela piscina. Pena que a favela, com seus barracos grotescos se alastra

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

Instituto Consulplan · 2025

A piscina

 

Era uma esplêndida residência, na Lagoa Rodrigo de Freitas, cercada de jardins e tendo ao lado uma bela piscina. Pena que a favela, com seus barracos grotescos se alastrando pela encosta do morro, comprometesse tanto a paisagem. Diariamente desfilavam diante do portão aquelas mulheres silenciosas e magras, lata d’água na cabeça. De vez em quando surgia sobre a grade a carinha de uma criança, olhos grandes e atentos, espiando o jardim. Outras vezes eram as próprias mulheres que se detinham e ficavam olhando.

 

Naquela manhã de sábado ele tomava seu gim-tônica no terraço, e a mulher um banho de sol, estirada, de maiô à beira da piscina, quando perceberam que alguém os observava pelo portão entreaberto.

 

Era um ser encardido, cujos mulambos em forma de saia não bastavam para defini-la como mulher. Segurava uma lata na mão, e estava parada, à espreita, silenciosa como um bicho. Por um instante as duas mulheres se olharam, separadas pela piscina. De súbito, pareceu à dona da casa que a estranha criatura se esgueirava, portão adentro, sem tirar os olhos dela. Ergueu-se um pouco, apoiando-se no cotovelo e viu com terror que ela se aproximava lentamente: já transpusera o gramado, atingia a piscina, agachava-se junto à borda de azulejo, sempre a olhá-la, em desafio e agora colhia água com a lata. Depois, sem uma palavra, iniciou uma cautelosa retirada, meio de lado, equilibrando a lata na cabeça – e em pouco sumia-se pelo portão.

 

Lá no terraço, o marido, fascinado, assistiu a toda a cena. Não durou mais de um ou dois minutos, mas lhe pareceu sinistra como os instantes tensos de silêncio e de paz que antecedem um combate. Não teve dúvida: na semana seguinte vendeu a casa.

 

(SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. Rio de Janeiro, 1976.

 

A crônica é uma forma textual no estilo de narração fundamentada em fatos que acontecem no cotidiano. Por esse motivo, é uma leitura agradável, pois o leitor interage com os acontecimentos e, muitas vezes, se identifica com as ações tomadas pelas personagens. Tendo em vista a intenção do autor, pode-se depreender, mais precisamente, que o objetivo dessa crônica é:

  1. Convencer o leitor através de evidências.
  2. Propor uma reflexão em torno do fato narrado.
  3. Descrever a “esplêndida residência” e a “predominância das favelas”.
  4. Retratar uma história real, com refutação e defesa de opinião contrárias.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A crônica narra um episódio cotidiano e breve — a mulher que se aproxima da piscina e toma água — de modo a suscitar reflexão no leitor. Não há lição explícita: o texto mostra e provoca pensar.

O autor trabalha o contraste social (residência luxuosa × favela), a cena carregada de tensão e a reação do casal (o marido vende a casa). Esses elementos despertam questões sobre preconceito, insegurança e olhar sobre o outro.

A linguagem contida e a ironia característica da crônica evitam moralizações diretas, convidando o leitor a interpretar motivos e consequências. Assim, a intenção predominante é exatamente levar o leitor a ponderar sobre o fato narrado.

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