Questão FC387390
– Outro?
Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))
Instituto Consulplan · 2025
Onde anda o analista de Bagé? Não sei. As notícias são desencontradas. Há quem diga que ele se aposentou, hoje vive nas suas terras perto de Bagé e se dedica a cuidar de bicho em vez de gente, só abrindo exceção para eventuais casos de angústia existencial ou regressão traumática de fundo psicossomático entre a peonada da estância.
Lindaura, a recepcionista que além de receber também dava, estaria com ele, e teria concordado em dividir o afeto do analista com uma égua chamada Posuda, desde que eles concordassem em nunca serem vistos juntos em público.
Outros dizem que o analista morreu, depois de tentar, inutilmente, convencer o marido de uma paciente que banhos regulares de jacuzzi a dois num motel faziam parte do tratamento.
E há os que sustentam que o analista continua clinicando, na Europa, onde a sua terapia do joelhaço, conhecida como “Thérapie du genou aux boules, ou le methode gaúchô”, tem grande aceitação e ele só tem alguma dificuldade com a correta tradução de “Pos se apeie nos pelego e respire fundo no más, índio velho”, no começo de cada sessão.
Não sei.
Bagé
Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
– Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
– O senhor quer que eu deite logo no divã?
– Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
– Certo, certo. Eu...
– Aceita um mate?
– Um quê? Ah, não. Obrigado.
– Pos desembucha.
– Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
– Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
– Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
– Outro...
– Outro?
– Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
– Eu acho uma pôca vergonha.
– Mas...
– Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!
(VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. Rio de Janeiro: L&PM, 1982. Fragmento.)
No texto, o analista de Bagé utiliza humor e pragmatismo para abordar os problemas apresentados por seus pacientes. Sua forma de lidar com questões como o Complexo de Édipo, por exemplo, revela seu estilo único e não convencional de análise. Considerando a ficcionalidade própria desse gênero textual, pode-se caracterizar o método do analista de Bagé como uma:
- Forma de análise que explora profundamente os traumas.
- Prática de desdém pelos problemas apresentados pelos pacientes.
- Maneira direta, pragmática e bem humorada de resolver problemas.
- Abordagem tradicional, seguindo métodos ortodoxos e com base no divã.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
O texto mostra claramente um estilo de atuação direto: o analista fala sem rodeios, usa linguagem coloquial e comandos objetivos, como em “Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!”, que resumem o encaminhamento terapêutico em uma frase simples.
Há também um caráter pragmático: em vez de longas elaborações teóricas, ele prioriza soluções práticas e imediatas — dispõe o paciente no divã, oferece mate, e indica uma mudança de atitude, voltada ao comportamento cotidiano.
E o humor permeia a cena, desdramatizando conflitos (como o Complexo de Édipo) e tornando a intervenção leve e acessível. Assim, a alternativa sintetiza bem o método apresentado: direta, pragmática e bem humorada.
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