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Questão FC387406

O açúcar O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como bei

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

Instituto Consulplan · 2025

O açúcar

 

O branco açúcar que adoçará meu café

nesta manhã de Ipanema

não foi produzido por mim

nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

 

Vejo-o puro

e afável ao paladar

como beijo de moça, água

na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar,

não foi feito por mim.

 

Este açúcar veio

da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,

dono da mercearia.

Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco

ou no Estado do Rio

e tampouco o fez o dono da usina.

 

Este açúcar era cana

e veio dos canaviais extensos

que não crescem por acaso

no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital

nem escola,

homens que não sabem ler e morrem de fome

aos vinte e sete anos

plantaram e colheram a cana

que viraria açúcar.

 

Em usinas escuras,

homens de vida amarga

e dura

produziram este açúcar

branco e puro

com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

 

(GULLAR, F. Toda poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 227-228.)

 

O poema apresenta uma reflexão crítica sobre:

  1. O valor nutritivo do açúcar.
  2. A importância do café para o cotidiano do autor.
  3. O papel do proprietário da mercearia na distribuição de produtos.
  4. A cadeia produtiva e as condições sociais envolvidas na produção do açúcar.
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Gabarito

D

Comentário do professor

O poema focaliza a cadeia produtiva do açúcar e as condições sociais que a tornam possível. A repetição de “não foi feito por mim” estabelece a distância entre o consumidor em Ipanema e os elos produtivos — mercearia, usina, canavial — que antecedem o produto.

Imagens como “usinas escuras” e versos sobre “homens que não sabem ler e morrem de fome aos vinte e sete anos” denunciam a exploração e a precariedade dos trabalhadores; o açúcar “branco e puro” contrasta com a dureza da vida que o produziu.

Assim, o poema não celebra o objeto, mas revela sua origem social e moral, convocando o leitor à consciência sobre a invisibilidade do trabalho e o custo humano da produção.

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