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Questão FC408634

Leia um trecho do conto “Tangerine-Girl”, de Raquel de Queiroz De princípio a interessou o nome da aeronave: não “zepelim” nem dirigível; o grande fuso de metal brilhante chamava-s

Semântica

VUNESP

Leia um trecho do conto “Tangerine-Girl”, de Raquel de Queiroz

 

De princípio a interessou o nome da aeronave: não “zepelim” nem dirigível; o grande fuso de metal brilhante chamava-se modernissimamente blimp. Pequeno como um brinquedo, independente, amável. A algumas centenas de metros da sua casa ficava a base aérea dos soldados americanos e o poste de amarração dos dirigíveis. E de vez em quando eles deixavam o poste e davam uma volta, como pássaros mansos que abandonassem o poleiro num ensaio de voo. Assim, aos olhos da menina, o \(blimp^1\) existia como um animal de vida própria; fascinava-a como prodígio mecânico que era, e principalmente ela o achava lindo, todo feito de prata, \(librando-se^2\) majestosamente pouco abaixo das nuvens. Não pensara nunca em entrar nele; não pensara sequer que pudesse alguém andar dentro dele. Verdade que via lá dentro umas cabecinhas espiando, mas tão minúsculas que não davam impressão de realidade.

 

O seu primeiro contato com a tripulação do dirigível começou de maneira puramente ocasional. Acabara o café da manhã; a menina tirara a mesa e fora à porta que dá para o laranjal, sacudir da toalha as migalhas de pão. Lá de cima um tripulante avistou aquele pano branco tremulando entre as árvores espalhadas e a areia, e o seu coração solitário comoveu-se. Vivia naquela base como um frade no seu convento – sozinho entre soldados e exortações patrióticas. E ali estava, juntinho ao oitão da casa, sacudindo um pano, uma mocinha de cabelo ruivo. O marinheiro agitou-se todo com aquele adeus. Várias vezes já sobrevoara aquela casa, vira gente entrando e saindo; e pensara quão distantes uns dos outros vivem os homens, quão indiferentes passam entre si, cada um trancado na sua vida. Ele estava voando por cima das pessoas, vendo-as e, se algumas erguiam os olhos, nenhuma pensava no navegador que ia dentro; queriam só ver a beleza prateada \(vogando^3\) pelo céu.

 

Mas agora aquela menina tinha para ele um pensamento, agitava no ar um pano, como uma bandeira; decerto era bonita – o sol lhe tirava fulgurações de fogo do cabelo. Seu coração atirou-se para a menina num grande impulso agradecido; debruçou-se à janela, agitou os braços, gritou: “Amigo!, amigo!” – embora soubesse que o vento, a distância, o ruído do motor não deixariam ouvir-se nada. Gostaria de lhe atirar uma flor, um mimo. Mas que podia haver dentro de um dirigível da Marinha que servisse para ser oferecido a uma pequena? O objeto mais delicado que encontrou foi uma grande caneca de louça branca, pesada como uma bala de canhão. E foi aquela caneca que o navegante atirou; atirou, não: deixou cair a uma distância prudente da figurinha iluminada, num gesto delicado, procurando abrandar a força da gravidade, a fim de que o objeto não chegasse sibilante como  um projétil, mas suavemente, como uma dádiva.

 

(Os cem melhores contos brasileiros do século.

Org. Italo Moriconi – Objetiva, 2001. Adaptado)

 

 

1. blimp: dirigível

2. librando-se: flutuando, equilibrando-se

3. vogando: flutuando

 

 

Assinale a alternativa em que o termo entre parênteses apresenta sentido oposto ao termo destacado no trecho do texto.

  1. Pequeno como um brinquedo, independente, amável.(autônomo)
  2. ... começou de maneira puramente ocasional. (fortuita)
  3. ... sozinho entre soldados e exortações patrióticas. (incitações)
  4. ... deixou cair a uma distância prudente... (segura)
  5. ... o objeto não chegasse sibilante como um projétil... (silente)
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Sibilante descreve algo que sibila: produz um som agudo, sussurrante ou assobiante ao deslocar‑se. No trecho, a imagem de um objeto que poderia chegar “sibilante como um projétil” evoca ruído cortante e perceptível, contrastando com a intenção do navegador de que a peça chegasse de modo suave.

O antônimo silente significa ausência de som, algo silencioso ou inaudível. Linguisticamente, trata‑se do oposto semântico direto: enquanto sibilante indica emissão sonora característica, silente aponta para a ausência dessa emissão.

No contexto, escolher silente reforça a ideia de que o gesto deveria passar despercebido pelo ouvido, chegando como dádiva silenciosa, não como projétil ruidoso — daí a correção da alternativa.

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