Questão FC408685
Desista, menino! Numa manhã de 1954, aos 19 anos e cheio de esperança, peguei um bonde na Penha e fui parar na redação da Folha da Manhã. Fui ao chefe de arte, expliquei que estava
Semântica
Desista, menino!
Numa manhã de 1954, aos 19 anos e cheio de esperança, peguei um bonde na Penha e fui parar na redação da Folha da Manhã. Fui ao chefe de arte, expliquei que estava em busca de uma oportunidade e apresentei uma pasta com meus trabalhos. Com ar displicente, ele passou os olhos em apenas dois ou três desenhos. A única coisa que disse, com ar meio professoral, meio zombeteiro, foi isto:
– Desista, menino. Desenho não dá dinheiro nem futuro para ninguém. Vá fazer outra coisa da vida.
Desde muito cedo, eu sonhava em ser desenhista de histórias em quadrinhos, mas tudo jogava contra. O Brasil não tinha tradição nessa área, as tiras de sucesso eram basicamente estrangeiras. Além disso, padres e educadores acreditavam que gibis eram uma ameaça para os jovens. Achavam que as crianças, por lerem histórias de crime e suspense, se tornariam psicopatas e assassinas. Se dependesse dos críticos, os gibis seriam riscados do mapa.
Mas eu nem desconfiava desse cenário. Só queria desenhar. Então como aquele cara podia decretar o fim do meu sonho dizendo que era impossível viver de desenho?!
A história do mundo está cheia de “nãos” que podiam fazer sentido para quem os disse, mas que depois se revelaram estupendas bolas fora. A gravadora Decca recusou os Beatles por julgar que eles nunca teriam futuro na música. Criadora do bruxo Harry Potter, J. K. Rowling levou mais de 10 nãos antes de encontrar a editora que publicaria seu primeiro livro. Walt Disney foi demitido de um jornal sob a alegação de ter pouca imaginação e nenhuma ideia original.
Em 1954, meus sonhos eram feitos basicamente de esperança. Aquele “Desista, menino”, que ouvi há mais de 60 anos, se tornou uma espécie de pedra fundamental que usei como base para construir o futuro. Em vez de derrubar o sonho, aquilo o reforçou. Por índole ou formação, a palavra “impossível” não constava do meu dicionário.
(Mauricio de Sousa. Mauricio – a história que não está no gibi –
em depoimento a Luis Colombini. Rio de Janeiro:
Primeira Pessoa, 2017. Adaptado)
Os termos zombeteiro, basicamente e índole, em destaque no 1º e 6º parágrafos, estão empregados, respectivamente, como sinônimos de
- brincalhão, fundamentalmente e instrução.
- irônico, naturalmente e insegurança.
- debochador, essencialmente e temperamento.
- irresoluto, principalmente e feitio.
- ressabiado, fortuitamente e natureza.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa C está correta porque os sinônimos escolhidos preservam o sentido das palavras destacadas no texto.
Zombeteiro equivale a debochador: ambos descrevem uma atitude de escárnio ou troça, isto é, um comportamento irônico e desdenhoso, como o do chefe de arte ao dispensar o jovem.
Basicamente corresponde a essencialmente: ambos indicam o núcleo ou a ideia principal — no trecho, os sonhos do narrador eram, em sua essência, feitos de esperança.
Índole tem o mesmo sentido de temperamento: referem-se à disposição ou caráter próprio de alguém, aqui usado para explicar a firmeza interior do narrador.
Portanto, a correspondência semântica entre os termos confirma que a letra C é a escolha adequada.
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