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Questão FC408764

Leia o texto, para responder a questão. Os mortos Esse dia que ainda se reserva aos Finados é quase desnecessário em seu simbolismo, porque os moços não reparam nele, e os maduros

Semântica

VUNESP

Leia o texto, para responder a questão.

 

Os mortos

 

Esse dia que ainda se reserva aos Finados é quase desnecessário em seu simbolismo, porque os moços não reparam nele, e os maduros e os velhos têm já formado o seu sentimento da morte e dos mortos. Esta é uma conquista do tempo, e prescinde de comemorações para se consolidar. Basta o exercício de viver, para nos desprender capciosamente da vida, ou, pelo menos, para entrelaçá-la de tal jeito com a morte que passamos a sentir essa última como forma daquela, e forma talvez mais apurada, à maneira de uma gravura que só se completa depois de provas sucessivas. Falo em gravura, e vejo à minha frente um desses originais de Goeldi*, em que o esplendor noturno é raiado de vermelho ou verde, numa condensação de treva tão intensa e compacta que não se sabe como a penetra esse facho de luz deslumbrante, coexistindo daí por diante numa espécie de casamento sinistro, à primeira impressão. Não, não é sinistro. Posso informar pessoalmente que a imbricação da ideia de morte na ideia de vida não é arrasadora para o homem, senão que constitui uma das sínteses morais a que o tempo nos conduz, como parte da experiência individual.

 

Os que eram do mesmo sangue, os amigos e companheiros que ainda há pouco sorriam a nosso lado ou mesmo nos impacientavam lá de vez em quando (mas era tão bom que nos impacientassem, agora que nem isso recebemos deles), onde estão, onde estão? Voltamo-nos para fora de nós e não os recuperamos; mas se nos aprofundarmos um pouco, vamos encontrá-los fundidos em nosso conhecimento das coisas, incorporados à nossa maneira de andar, comer e dormir; intatos, mesmo sob a camada de esquecimento em que outra vez os sepultamos, porque, contraditoriamente, eles não se deixaram ficar esquecidos, e brincam de se fazer lembrados nas horas mais imprevistas.

 

(Carlos Drummond de Andrade, Fala, amendoeira)

 

* Oswaldo Goeldi, ilustrador, gravurista, desenhista brasileiro.

 

 

A relação de sentido de antonímia que há entre as palavras vida e morte está presente também nos pares:

  1. consolidar e desestabilizar; apurada e requintada.
  2. fundidos e reunidos; compacta e densa.
  3. condensação e reunião; noturno e diurno.
  4. intatos e inalterados; sínteses e antíteses.
  5. desprender e atar; esquecimento e lembrança.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Vida e morte são pares de sentido oposto: uma designa presença e continuidade; a outra, ausência ou cessação. No texto, essa relação é reproduzida por outros pares que apresentam igualmente sentido contrariado.

O par desprender — atar expressa oposição direta: desprender implica libertar, afastar, soltar-se de algo; atar significa prender, unir, vincular. No trecho há a ideia de “nos desprender capciosamente da vida”, o que confirma o uso de desprender como ação contrária ao ato de atar.

Já esquecimento — lembrança formam um par antagônico no domínio da memória: o primeiro indica perda ou ocultamento do conteúdo mental; o segundo, a recuperação e manutenção desse conteúdo. O autor mostra ambos os polos ao falar de mortos que “se sepultam” no esquecimento e, paradoxalmente, reaparecem como lembrança.

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