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Questão FC408963

– Teodorico! você... escreveu um livro?

Semântica

VUNESP

Leia o texto para responder à questão.

Sondagem


O carteiro, conversador amável, não gosta de livros. Tornam pesada a carga matinal, que, na sua opinião, devia constituir-se apenas de cartas. – No máximo algum jornalzinho leve, mas esses pacotes e mais pacotes que o senhor recebe, ler tudo isso deve ser de morte!

 

Explico-lhe que não é preciso ler tudo isso, e ele muito se admira:


– Então o senhor guarda sem ler? E como é que sabe o que tem no miolo?


Esclareço que não leio de ponta a ponta, mas sempre leio algumas páginas.


– Com o devido respeito, mas quem lhe mandou o livro desejava que o senhor lesse tudinho.


– Bem, Teodorico, faz-se o possível, mas...


– Eu sei, eu sei. O senhor não tem tempo.


– É.


– Mas quem escreveu, coitado! Esse perdeu o seu latim, como se diz.


– Será que perdeu? Teve satisfação em escrever, esvaziou a alma.


A ideia de que escrever é esvaziar a alma perturbou meu carteiro, tanto quanto percebo em seu rosto magro e sulcado.


– Não leva a mal?


– Não levo a mal o quê?


– Eu lhe dizer que nesse caso carece prestar mais atenção ainda nos livros, muito mais! Se um cidadão vem à sua casa e pede licença para contar um desgosto de família, uma dor forte, dor-de-cotovelo, vamos dizer assim, será que o senhor não escutava o lacrimal dele?


– Teodorico, nem todo livro representa uma confissão do autor. E depois, no caso de ter uma dor moral, escrevendo o livro o camarada desabafa, entende? Pouco importa que seja lido ou não, isso é outra coisa.


Ficou pensativo; à procura de argumento? Enquanto isso, eu meditava a curiosidade de um carteiro que se queixa de carregar muitos livros e ao mesmo tempo reprova que outros não os leiam integralmente.


– Tem razão. Não adianta mesmo escrever.


– Como não adianta? Lava o espírito.


– No meu fraco raciocínio, uma coisa nunca acontece sozinha nem acaba sozinha. Se a pessoa, vamos dizer, eu, só para armar um exemplo, se eu escrevo um livro, deve existir um outro – o senhor, numa hipótese – para receber e ler esse livro. Mas se o senhor não liga a mínima, foi besteira eu fazer esse esforço.


– Teodorico! você... escreveu um livro?


Virou o rosto.


– De poesia, mas agora não adianta eu lhe oferecer um exemplar. Até segunda, bom domingo para o senhor.


– Escute aqui, Teodorico...


– Bem, já que o senhor insiste, aqui está o seu volume, não repare os defeitos, ouviu? Esvaziei bastante a alma, tudo não era possível!


(Carlos Drummond de Andrade. A bolsa e a vida. 1959. Adaptado)

 

O termo lacrimal, destacado em – Se um cidadão vem à sua casa e pede licença para contar um desgosto de família, uma dor forte, dor-de-cotovelo, vamos dizer assim, será que o senhor não escutava o lacrimal dele? –, expressa ideia de

  1. prognóstico.
  2. subterfúgio.
  3. retaliação.
  4. lamentação.
  5. exortação.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A palavra lacrimal no enunciado transmite a ideia de lamentação.

Etimologicamente, lacrimal relaciona-se a lágrima (do latim lacrima), remetendo ao pranto e ao choro.

No contexto — “desgosto de família, uma dor forte, dor-de-cotovelo” — trata‑se de motivos de sofrimento; perguntar se o carteiro “escutava o lacrimal dele” é indagar se acolhia a queixa, o pranto, a reclamação do outro.

Trata‑se, portanto, de um uso figurado/por metonímia: lacrimal representa o ato de chorar ou a expressão de dor moral, isto é, a lamentação.

Por isso, a alternativa que indica lamentação corresponde com precisão ao sentido do termo no trecho.

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