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Questão FC409024

– Não é melhor que eu entregue ao motorista?

Semântica

VUNESP

Leia o texto a seguir para responder à questão.

O achado


Jamais em minha vida achei na rua ou em qualquer parte do globo um objeto qualquer. Há pessoas que acham carteiras, joias, promissórias, animais de luxo, e sei de um polonês que achou um piano na praia do Leblon. Mas este escriba, nada: nem um botão.


Por isso, grande foi a minha emoção ao deparar, no assento do ônibus, com uma bolsa preta de senhora. O destino me prestava esse pequeno favor: completava minha identificação com o resto da humanidade, que tem sempre para contar uma história de objeto achado; e permitia-me ser útil a alguém, devolvendo o que lhe faria falta.


A bolsa pertencia certamente à moça morena que viajara ao meu lado, e de quem eu vira apenas o perfil. Sentara-se, abrira o livro e mergulhara na leitura. Absorta na leitura, ao sair esquecera o objeto, que só me atraiu a atenção quando o ônibus já ia longe.


Mas eu não estava preparado para achar uma bolsa, e comuniquei a descoberta ao passageiro mais próximo:


– A moça esqueceu isto.


Ele, sem dúvida mais experimentado, respondeu simplesmente:


– Abra.


Hesitei: constrangia-me abrir a bolsa de uma desconhecida ausente; nada haveria nela que me dissesse respeito.


– Não é melhor que eu entregue ao motorista?


– Complica. A dona vai ter dificuldade em identificar o ônibus. Abrindo, o senhor encontra um endereço, pronto.


Era razoável, e diante da testemunha abri a bolsa, não sem experimentar a sensação de violar uma intimidade. Procurei a esmo entre as coisinhas, não achei elemento esclarecedor. Era isso mesmo: o destino me dava as coisas pela metade. Fechei-a depressa.


– Leve para casa – ponderou meu conselheiro, como quem diz: – É sua. Mas acrescentou: – procure direito e o endereço aparece.


Como ele também descesse logo depois, vi-me sozinho com a bolsa na mão.


(Carlos Drummond de Andrade, “A bolsa e a vida”. In: Joaquim Ferreira dos Santos

(org.) As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Adaptado)

 

Em – Procurei a esmo entre as coisinhas, não achei elemento esclarecedor. –, a expressão em destaque pode ser corretamente substituída, sem que seja alterado o sentido da frase, por:

  1. com cuidado.
  2. sem demora.
  3. minuciosamente.
  4. ao acaso.
  5. sorrateiramente.
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Gabarito

D

Comentário do professor

a esmo pode ser corretamente substituída por ao acaso porque ambas expressões indicam uma ação feita sem plano ou critério definido.

Trata‑se de uma busca realizada de modo improvisado e desordenado, sem sequência lógica ou atenção meticulosa — em outras palavras, uma procura feita sem método.

No contexto da crônica, o narrador remexe “entre as coisinhas” de forma superficial e sem objetivo rigoroso, o que justifica perfeitamente a expressão ao acaso para manter o mesmo sentido.

Portanto, a substituição preserva o significado original: uma investigação casual, sem intenção de examinar detidamente ou seguir um procedimento.

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