Questão FC409104
Leia o início do conto “Luís Soares”, de Machado de Assis, para responder à questão. Trocar o dia pela noite, dizia Luís Soares, é restaurar o império da natureza corrigindo a obra
Linguagem
Leia o início do conto “Luís Soares”, de Machado de Assis, para responder à questão.
Trocar o dia pela noite, dizia Luís Soares, é restaurar o império da natureza corrigindo a obra da sociedade. O calor do sol está dizendo aos homens que vão descansar e dormir, ao passo que a frescura relativa da noite é a verdadeira estação em que se deve viver. Livre em todas as minhas ações, não quero sujeitar-me à lei absurda que a sociedade me impõe: velarei de noite, dormirei de dia.
Contrariamente a vários ministérios, Soares cumpria este programa com um escrúpulo digno de uma grande consciência. A aurora para ele era o crepúsculo, o crepúsculo era a aurora. Dormia 12 horas consecutivas durante o dia, quer dizer das seis da manhã às seis da tarde. Almoçava às sete e jantava às duas da madrugada. Não ceava. A sua ceia limitava-se a uma xícara de chocolate que o criado lhe dava às cinco horas da manhã quando ele entrava para casa. Soares engolia o chocolate, fumava dois charutos, fazia alguns trocadilhos com o criado, lia uma página de algum romance, e deitava-se.
Não lia jornais. Achava que um jornal era a cousa mais inútil deste mundo, depois da Câmara dos Deputados, das obras dos poetas e das missas. Não quer isto dizer que Soares fosse ateu em religião, política e poesia. Não. Soares era apenas indiferente. Olhava para todas as grandes cousas com a mesma cara com que via uma mulher feia. Podia vir a ser um grande perverso; até então era apenas uma grande inutilidade.
(Contos fluminenses, 2006.)
Assinale a alternativa que apresenta um trecho do texto e uma figura de linguagem que nele ocorre.
- “O calor do sol está dizendo aos homens que vão descansar e dormir” (1º parágrafo) – personificação.
- “a frescura relativa da noite é a verdadeira estação em que se deve viver” (1º parágrafo) – eufemismo.
- “Trocar o dia pela noite, dizia Luís Soares, é restaurar o império da natureza corrigindo a obra da sociedade” (1º parágrafo) – gradação.
- “Olhava para todas as grandes cousas com a mesma cara com que via uma mulher feia” (3º parágrafo) – pleonasmo.
- “Podia vir a ser um grande perverso; até então era apenas uma grande inutilidade” (3º parágrafo) – paradoxo.
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Gabarito
A
Comentário do professor
“O calor do sol está dizendo aos homens que vão descansar e dormir” — trata‑se de personificação.
A personificação (ou prosopopeia) consiste em atribuir ações, sentimentos ou qualidades humanos a seres inanimados ou abstratos. No trecho, o elemento inanimado calor do sol recebe a ação de falar (“está dizendo”), o que é impossível na realidade.
Essa figura torna o texto mais expressivo: anima a natureza e reforça a ideia de que o ciclo dia/noite impõe um “mandato” sobre os homens. Ao humanizar o sol, o enunciado legitima, do ponto de vista do narrador/personagem, a inversão dos hábitos sociais.
No plano estilístico, a personificação também contribui para o tom irônico e para a caracterização de Luís Soares como alguém que interpreta o mundo de modo próprio e sensível às forças naturais.
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