Questão FC409123
Leia o trecho inicial de um poema de Álvaro de Campos, heterônimo do escritor Fernando Pessoa (1888-1935), para responder a questão. Esta velha angústia, Esta angústia que trago há
Linguagem
Leia o trecho inicial de um poema de Álvaro de Campos, heterônimo do escritor Fernando Pessoa (1888-1935), para responder a questão.
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
(Obra poética, 1965.)
A hipérbole é uma figura de palavra que consiste no exagero verbal (para efeito expressivo): “já disse mil vezes”, “correram mares de sangue”.
(Celso Pedro Luft. Abc da língua culta, 2010. Adaptado.)
Verifica-se a ocorrência de hipérbole no seguinte verso:
- “Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.” (3ª estrofe)
- “Mal sei como conduzir-me na vida” (2ª estrofe)
- “Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.” (1ª estrofe)
- “Se ao menos endoidecesse deveras!” (2ª estrofe)
- “Esta angústia que trago há séculos em mim,” (1ª estrofe)
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Comentário do professor
Hipérbole é uma figura de linguagem que usa o exagero para intensificar uma ideia ou emoção. No verso “Esta angústia que trago há séculos em mim,”, o poeta emprega precisamente esse artifício.
Literalmente, o eu lírico não pode carregar uma angústia por “séculos”; trata‑se de uma hipérbole que comunica a sensação de duração excessiva e contínua. O recurso exagera o tempo para traduzir a profundidade e a persistência do sofrimento.
Funciona também como marca de subjetividade: ao dizer “há séculos”, o falante torna palpável a intensidade do seu mal‑estar, conferindo dramaticidade e urgência ao enunciado. Assim, a expressão cumpre a função retórica de ampliar o impacto emocional sobre o leitor.
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