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Questão FC409134

– Aceita?

Linguagem

VUNESP

Leia o texto para responder à questão.


Caça aos clientes


Gosto de entrar nas lojas calmamente. Passear olhando os produtos. Ultimamente, tornou-se impossível. Certos vendedores ficam na cola da gente! Dia desses, fui a uma loja de decoração. Uma jovem elegantíssima aproximou-se.

– Já conhece nossa linha?

– Ah, só estou passeando.

É mentira, claro. Quem entra em uma loja tem o sonho de comprar. Falar em olhar é o mesmo que dizer:

– Vê se não enche.

A vendedora era do tipo insistente. Se eu dava dois passos e parava diante de um móvel, corria a abrir as gavetas.

– Veja o acabamento! Preste atenção no detalhe de madeira.

Fugi, constrangido! Joalherias são as piores. Admiro um anelzinho na vitrine. Pode ser um ótimo presente de Natal!

Entro, meio sem jeito com o ambiente em que tudo parece tão caro.

– Queria saber o preço daquele anelzinho.

A mocinha lança um olhar dominador:

– Sente-se.

– Mas...

Quase me empurra na cadeira. Vai buscar o mostruário. Observo a porta, esperançoso. Poderia sair correndo, perder-me nos corredores do shopping. Tarde demais. Ela retorna com o tesouro de Ali Babá. Mostra. O tal anelzinho é barato. Sugere uma gargantilha de safira e brincos combinando...

Quando vejo, estou pagando as peças em três vezes!

E roupas, então? Vendedor sabe o significado da palavra impulso. É assim: a gente bota uma roupa no provador. Respira fundo para a calça fechar. A barriga parece sumir. Compra. Em casa, o botão estoura. A camiseta sobe e o umbigo fica de fora!

Portanto, tento ser cauteloso.

– Só uma camisa branca.

– Estamos com uma promoção em ternos.

– Ah, terno eu nunca uso!

Recebo de volta um olhar desconfiado. Como pode existir alguém que não veste terno? Conclui que devo estar mentindo.

Cochicha no meu ouvido:

– Aproveite, está a 50%.

– Para pendurar no armário e não usar o terno nunca?

Suas pupilas se fixam em outro cliente entrando. Ar próspero. Suspira. Leio em sua expressão:

– Por que fui atender logo esse chato?

Até em supermercados anda difícil. Estou parado diante dos produtos light, repleto das melhores intenções. Uma demonstradora aproxima-se com a bandejinha lotada de petiscos.

– Aceita?

Ainda não almocei. Tenho vontade de roubar a bandeja e fugir correndo. Respondo cortesmente:

– Agradeço. Mas estou de regime.

Ela sorri e se afasta. Dou dois passos, e ela reaparece na minha frente.

– Aceita?

– Bem...

Apodero-me de quatro torradas e cubro cada uma com um sabor diferente. Rapidamente, ela indica:

– Olhe, o produto é este aqui.

Abarroto o carrinho justamente de todos os petiscos que havia jurado nunca mais levar à boca!

Está certo. Não se pode culpar o vendedor. Mas, sinceramente, muitas vezes parece que está aberta a temporada de caça aos clientes! Certos vendedores agarram-se a mim como carrapato. E o pior: nem me deixam comprar em paz!
 

(Walcyr Carrasco, revista VejaSP, 24.09.2011. Adaptado)


Imagens que exageram uma ideia podem servir para dar humor ao texto. É o recurso que o autor emprega em

  1. Está certo. Não se pode culpar o vendedor.
  2. É mentira, claro. Quem entra em uma loja tem o sonho de comprar.
  3. Sugere uma gargantilha de safira e brincos combinando...
  4. Dia desses, fui a uma loja de decoração.
  5. Tenho vontade de roubar a bandeja e fugir correndo.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A frase "Tenho vontade de roubar a bandeja e fugir correndo." funciona como uma hipérbole: trata-se de um exagero intencional que não deve ser interpretado literalmente. O narrador, ainda sem almoço e diante de amostras apetitosas, expressa de forma exagerada seu impulso de apropriar‑se da comida.

Esse exagero gera efeito humorístico, pois contrasta com a atitude cortês posterior ("Agradeço. Mas estou de regime.") e com a impossibilidade real da ação. A imagem de alguém fugindo com a bandeja é inusitada e provoca riso ao revelar, de modo amplificado, a luta entre desejo e controle.

Portanto, a alternativa é correta porque identifica corretamente a figura de linguagem (hipérbole) e seu propósito comunicativo (criar humor a partir do exagero).

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