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Questão FC409136

Tu outrora talvez desses-lhe um beijo; Por que repugnas levantá-la agora? Olha-a comigo! Que espaçosa fronte! Quanta vida ali dentro fermentava, Como a seiva nos ramos do arvoredo!

Linguagem

VUNESP

A questão toma por base um fragmento de Glória moribunda, do poeta romântico brasileiro Álvares de Azevedo (1831-1852).

 

É uma visão medonha uma caveira? Não tremas de pavor, ergue-a do lodo. Foi a cabeça ardente de um poeta, Outrora à sombra dos cabelos loiros. Quando o reflexo do viver fogoso Ali dentro animava o pensamento, Esta fronte era bela. Aqui nas faces Formosa palidez cobria o rosto; Nessas órbitas — ocas, denegridas! — Como era puro seu olhar sombrio!

 

Agora tudo é cinza. Resta apenas A caveira que a alma em si guardava, Como a concha no mar encerra a pérola, Como a caçoula a mirra incandescente.

 

Tu outrora talvez desses-lhe um beijo; Por que repugnas levantá-la agora? Olha-a comigo! Que espaçosa fronte! Quanta vida ali dentro fermentava, Como a seiva nos ramos do arvoredo! E a sede em fogo das ideias vivas Onde está? onde foi? Essa alma errante Que um dia no viver passou cantando, Como canta na treva um vagabundo, Perdeu-se acaso no sombrio vento, Como noturna lâmpada apagou-se? E a centelha da vida, o eletrismo Que as fibras tremulantes agitava Morreu para animar futuras vidas?

 

Sorris? eu sou um louco. As utopias, Os sonhos da ciência nada valem. A vida é um escárnio sem sentido, Comédia infame que ensanguenta o lodo. Há talvez um segredo que ela esconde; Mas esse a morte o sabe e o não revela. Os túmulos são mudos como o vácuo. Desde a primeira dor sobre um cadáver, Quando a primeira mãe entre soluços Do filho morto os membros apertava Ao ofegante seio, o peito humano Caiu tremendo interrogando o túmulo... E a terra sepulcral não respondia.

 

( Poesias completas, 1962.)

 

Como a concha no mar encerra a pérola,

Como a caçoula a mirra incandescente.

 

Nos versos em destaque, após a palavra caçoula, está subentendida, por elipse, a forma verbal

  1. teme.
  2. seca.
  3. brilha.
  4. queima.
  5. encerra.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Nos dois versos paralelos, há elipse do verbo na segunda comparação: a primeira linha afirma explicitamente "Como a concha no mar encerra a pérola", portanto o mesmo verbo fica subentendido em "Como a caçoula a mirra incandescente."

O contexto e o paralelismo sintático exigem a repetição tácita de encerra. Morfologicamente, a caçoula (fem. sing.) pede verbo em 3ª pessoa do singular, e a mirra incandescente funciona como objeto direto, compatível com encerra no presente do indicativo, que confere valor atemporal e descritivo típico do poema.

Assim, a elipse preserva sentido, ritmo e economia expressiva: recupera‑se logicamente o verbo encerra.

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