Questão FC409139
Por longo tempo, jovem demais, estranhei a visão de felicidade que prevalecia em nossa cultura, a recorrência da noção de uma felicidade efêmera, momento fugidio que mal faz estrem
Linguagem
Por longo tempo, jovem demais, estranhei a visão de felicidade que prevalecia em nossa cultura, a recorrência da noção de uma felicidade efêmera, momento fugidio que mal faz estremecer a dor contínua. “A tristeza é senhora”, cantava João Gilberto, e eu cantava junto tentando acompanhar seu ritmo impossível, mas acompanhando menos ainda o sentimento. Creio ter sido esta a primeira metáfora que admirei na vida, e a primeira que descartei como imprecisa: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor. Brilha tranquila, depois de leve oscila, e cai como uma lágrima de amor.” Essa mesma lágrima, essa lágrima de orvalho e de amor, não seria, pelo contrário, a mais linda expressão da tristeza, ela sim breve e lírica?
(Julian Fuks. Em: www.uol.com.br/ecoa, 05.11.2022. Adaptado)
Nas práticas de leitura em sala de aula, passagens como “‘A tristeza é senhora’, cantava João Gilberto...” e “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor. Brilha tranquila, depois de leve oscila, e cai como uma lágrima de amor.” são propícias para a abordagem da
- intertextualidade, reconhecendo-se que, em novos contextos, elas sustentam novos sentidos pretendidos pelo autor do texto.
- ambiguidade, reconhecendo-se que, em letras de canções, elas exploram sentidos fugidios e de difícil compreensão.
- dialogia, reconhecendo-se que, na inserção em um texto novo, elas passam a significar o contrário de seu sentido original.
- oralidade, reconhecendo-se que, como expressão da cultura popular, elas são carregadas de marcas da linguagem informal.
- coerência, reconhecendo-se que, como expressões cristalizadas em linguagem poética, independem de sentido contextual.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A passagem exemplifica intertextualidade: a presença de outros textos (a canção de João Gilberto e a metáfora poética) dentro do enunciado do autor, que os retoma para produzir sentidos novos no seu próprio contexto.
Ao citar e recriar imagens alheias, o autor não apenas remete à obra musical, mas a re-significa, oferecendo uma leitura crítica sobre a ideia de felicidade e tristeza; assim, as parcelas textuais dialogam e ganham significado ampliado na nova situação discursiva.
Em sala, proponha atividades para identificar a fonte, comparar contextos (original e reapresentação) e analisar como o efeito semântico muda: qual intenção do autor ao retomar essas falas e imagens?
Esse trabalho desenvolve a leitura crítica e a capacidade de perceber como textos se relacionam e produzem sentidos conjuntos.
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