Questão FC409146
Para responder a questão, leia um trecho do prefácio “O recado da mata”, do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, para o livro A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Da
Linguagem
Para responder a questão, leia um trecho do prefácio “O recado da mata”, do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, para o livro A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert.
A queda do céu é um acontecimento científico incontestável, que levará, suspeito, alguns anos para ser devidamente assimilado pela comunidade antropológica. Mas espero que todos os seus leitores saibam identificar de imediato o acontecimento político e espiritual muito mais amplo, e de muito grave significação, que ele representa. Chegou a hora, em suma; temos a obrigação de levar absolutamente a sério o que dizem os índios pela voz de Davi Kopenawa — os índios e todos os demais povos “menores” do planeta, as minorias extranacionais que ainda resistem à total dissolução pelo liquidificador modernizante do Ocidente. Para os brasileiros, como para as outras nacionalidades do Novo Mundo criadas às custas do genocídio americano e da escravidão africana, tal obrigação se impõe com força redobrada. Pois passamos tempo demais com o espírito voltado para nós mesmos, embrutecidos pelos mesmos velhos sonhos de cobiça e conquista e império vindos nas caravelas, com a cabeça cada vez mais “cheia de esquecimento”, imersa em um tenebroso vazio existencial, só de raro em raro iluminado, ao longo de nossa pouco gloriosa história, por lampejos de lucidez política e poética. Davi Kopenawa ajuda-nos a pôr no devido lugar as famosas “ideias fora do lugar”, porque o seu é um discurso sobre o lugar, e porque seu enunciador sabe qual é, onde é, o que é o seu lugar. Hora, então, de nos confrontarmos com as ideias desse lugar que tomamos a ferro e a fogo dos indígenas, e declaramos “nosso” sem o menor pudor [...].
(A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, 2015.)
Considerando a palavra “esquecimento” na acepção de “falta de memória”, a expressão “cheia de esquecimento” constitui, em si,
- uma sinestesia.
- um pleonasmo.
- um paradoxo.
- um eufemismo.
- uma personificação.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Paradoxo é uma expressão em que termos logicamente opostos aparecem juntos, criando contradição aparente que provoca reflexão.
A expressão "cheia de esquecimento" reúne duas ideias incompatíveis: esquecimento significa ausência ou perda de memória, enquanto cheia indica plenitude. Colocar a falta como algo que preenche cria um choque conceitual — é a imagem de um conteúdo que, por sua própria natureza, não pode existir como conteúdo.
Esse contraste não é mera incoerência; é um recurso retórico que intensifica o sentido: sugere um estado tão dominado pelo esquecimento que ele ocupa toda a consciência, transformando a ausência em presença simbólica.
Portanto, a expressão funciona como paradoxo, ao gerar um contrassenso que ilumina criticamente a ideia que o autor quer transmitir.
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