FC ConcursosFC Concursos

Questão FC409147

— Como?!... Ora... Pois se eu a estou a dizer?

Linguagem

VUNESP

Para responder a questão, leia o trecho do conto- prefácio “Hipotrélico”, que integra o livro Tutameia, de João Guimarães Rosa.

 

Há o hipotrélico. O termo é novo, de impesquisada origem e ainda sem definição que lhe apanhe em todas as pétalas o significado. Sabe-se, só, que vem do bom português. Para a prática, tome-se hipotrélico querendo dizer: antipodático, sengraçante imprizido; ou, talvez, vice-dito: indivíduo pedante, importuno agudo, falto de respeito para com a opinião alheia. Sob mais que, tratando-se de palavra inventada, e, como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria existência.

 

Somos todos, neste ponto, um tento ou cento hipotrélicos? Salvo o excepto, um neologismo contunde, confunde, quase ofende. Perspica-nos a inércia que soneja em cada canto do espírito, e que se refestela com os bons hábitos estadados. Se é que um não se assuste: saia todo-o-mundo a empinar vocábulos seus, e aonde é que se vai dar com a língua tida e herdada? Assenta-nos bem à modéstia achar que o novo não valerá o velho; ajusta-se à melhor prudência relegar o progresso no passado. [...]

 

Já outro, contudo, respeitável, é o caso — enfim — de “hipotrélico”, motivo e base desta fábula diversa, e que vem do bom português. O bom português, homem-de-bem e muitíssimo inteligente, mas que, quando ou quando, neologizava, segundo suas necessidades íntimas.

 

Ora, pois, numa roda, dizia ele, de algum sicrano, terceiro, ausente:

 

— E ele é muito hiputrélico...

 

Ao que, o indesejável maçante, não se contendo, emitiu o veto:

 

— Olhe, meu amigo, essa palavra não existe.

 

Parou o bom português, a olhá-lo, seu tanto perplexo:

 

— Como?!... Ora... Pois se eu a estou a dizer?

 

— É. Mas não existe.

 

Aí, o bom português, ainda meio enfigadado, mas no tom já feliz de descoberta, e apontando para o outro, peremptório:

 

— O senhor também é hiputrélico...

 

E ficou havendo.

 

(Tutameia, 1979.)

 

O efeito cômico do texto deriva, sobretudo, da ambiguidade da expressão

  1. “homem-de-bem”.
  2. “bom português”.
  3. “indesejável maçante”.
  4. “necessidades íntimas”.
  5. “indivíduo pedante”.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

B

Comentário do professor

O efeito cômico do trecho apoia-se na ambiguidade da expressão “bom português”. Lida de forma literal, sugere um homem de nacionalidade portuguesa; lida como julgamento linguístico, indica alguém que emprega o português castiço ou normas tradicionais.

Rosa explora esse duplo sentido: o “bom português” inventa neologismos e, ao mesmo tempo, aparece como figura que deveria preservar a língua. Essa contradição — alguém que “vem do bom português” mas cria palavras novas e ridiculariza o intolerante que nega a existência do vocábulo — gera ironia e riso.

Assim, o humor nasce da tensão entre identidade e uso linguístico, isto é, entre quem é o falante e como ele fala; essa sobreposição de sentidos torna a expressão cômica.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo