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Questão FC409176

– Mas, como? Agora que você está delegado?

Morfologia

VUNESP · 2014

Um homem de consciência


Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.


Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E, por muito tempo, não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.

 

Mas João Teodoro acompanhava com aperto no coração o desaparecimento visível de sua Itaoca.


“Isto já foi muito melhor”, dizia consigo. “Já teve três médicos bem bons – agora um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se acabando ...”


João Teodoro entrou a incubar a ideia de também mudar-se, mas para isso necessitava de um fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.


“É isso”, deliberou lá por dentro. “Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.”


Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, se julgava capaz de nada ...


Ser delegado numa cidadezinha daquelas é coisa seríssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado – e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca! ...


João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada botou-as num burro, montou seu cavalo magro e partiu.


– Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?


– Vou-me embora – respondeu o retirante. – Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.


– Mas, como? Agora que você está delegado?


– Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado eu não moro. Adeus.


E sumiu.


(Monteiro Lobato. Cidades Mortas. São Paulo: Globo, 2009)


rábula: advogado sem diploma

 

Leia e analise o trecho a seguir:


Uma coisa colossal ser delegado – e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca! ...


A forma verbal em destaque – estava – referindo-se à nomeação de João Teodoro para o cargo de delegado, expressa

  1. um fato habitual.
  2. uma ação hipotética.
  3. um estado momentâneo.
  4. um estado duradouro.
  5. uma ação no futuro.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Estava aparece no texto como forma do pretérito imperfeito do indicativo e, nessa construção, marca um estado momentâneo no passado: indica que João Teodoro ocupava a condição de delegado em certo momento da narrativa, sem enfatizar permanência.


O uso sublinha uma condição passageira ou percebida como transitória — ele “estava delegado” naquele instante, não se apresenta como uma identidade definitiva. A escolha verbal reflete a visão do personagem e do narrador sobre essa situação: é uma circunstância que se lhe impõe no tempo narrado.


Exemplos análogos: a loja estava aberta (num dado momento) ou ele estava feliz naquela tarde — ambos expressam um estado limitado no tempo.

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