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Questão FC409210

Uma receita exclusiva de panqueca, por exemplo, talvez nunca mais seja executada. Ou um jeito de cantar para ninar, de pedir uma informação, de reagir a uma martelada no dedo. E qu

Morfologia

VUNESP · 2013

Leia o texto para responder à questão.

 

Namoro em ayapaneco

 

Leio no “Globo” que, no México, a língua de uma aldeia está condenada a desaparecer por falta de fluentes – só restam dois homens capazes de falá-la. Mas, embora sejam vizinhos, eles não se dão e não conversam um com o outro. Além disso, já estão com certa idade – 75 e 69 anos – e não transmitiram a língua a seus descendentes. Bastará que um dos dois morra para que ela seja declarada oficialmente extinta.

 

O desaparecimento de uma língua não é um fenômeno incomum. Acontece o tempo todo e em toda parte – em arquipélagos, grotões, montanhas, na selva e até nos guetos das megalópoles. Os motivos são vários: migrações, urbanização, a televisão, a ditadura da língua dominante e até mesmo a proibição de usar a língua nativa. Mas, sempre que uma língua emudece, a humanidade fica mais pobre.

 

A língua em questão é o ayapaneco, da vila de Ayapa, no sul do México. Nos últimos 500 anos, o ayapaneco sobreviveu ao conquistador Hernán Cortés, aos massacres étnicos, às incontáveis revoluções, ao peso esmagador dos EUA no cangote dos mexicanos e até à supremacia por decreto do espanhol (de uso obrigatório). Mas não sobreviverá ao desinteresse de seus jovens em continuar falando-o.

 

Quando uma língua deixa de existir, tudo que ela designava vai para o limbo – objetos, costumes, gírias, cheiros, sensações. Junto com o código, o entorno inteiro se evapora. E é possível que, na cultura de Ayapa, haja coisas que só fazem sentido em ayapaneco.

 

Uma receita exclusiva de panqueca, por exemplo, talvez nunca mais seja executada. Ou um jeito de cantar para ninar, de pedir uma informação, de reagir a uma martelada no dedo. E quem saberá reproduzir o que um homem e uma mulher ayapanequenses diziam um para o outro quando namoravam e que só podia ser dito em ayapaneco?

 

(Ruy Castro, Folha de S.Paulo, 20.04.2011. Adaptado)

 

Assinale a alternativa em que as formas verbais em destaque no trecho expressam, respectivamente, um fato passado habitual e um fato passado definitivamente concluído.

  1. Leio no “Globo” que, no México, a língua de uma aldeia está condenada a desaparecer...

    Nos últimos 500 anos, o ayapaneco sobreviveu ao conquistador Hernán Cortés...

  2. ... só restam dois homens capazes de falá-la.

    Uma receita exclusiva de panqueca, por exemplo, talvez nunca mais seja executada.

  3. Bastará que um dos dois morra para que ela seja declarada oficialmente extinta.

    ...o que um homem e uma mulher ayapanequenses diziam um para o outro...

  4. Quando uma língua deixa de existir, tudo que ela designava vai para o limbo – objetos, costumes...

    ... já estão com certa idade – 75 e 69 anos – e não transmitiram a língua a seus descendentes.

  5. Junto com o código, o entorno inteiro se evapora.

    ... quando namoravam e que só podia ser dito em ayapaneco?

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Gabarito

D

Comentário do professor

Alternativa D. Os verbos destacados são designava e transmitiram, que pertencem a tempos verbais distintos e têm valores diferentes no enunciado.

designava está no pretérito imperfeito. Morfologicamente aparece com a desinência “-ava” e semanticamente indica ação passada de caráter habitual, habitualidade ou continuidade: algo que a língua costumava nomear de modo recorrente no passado.

transmitiram está no pretérito perfeito. A forma indica ação passada iniciada e concluída: os sujeitos não passaram a língua adiante — fato ocorrido e definitivamente encerrado no passado.

Assim, o enunciado opõe uma referência habitual passada (designava) a um fato passado e concluído (transmitiram), justificando a escolha da alternativa.

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