Questão FC409248
Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade. Crianças e bêbados, já foi escrito, possuem estranho compromisso com o verídico. Anos atrás, uma amiga decidiu c
Colocação Pronominal
VUNESP · 2023
Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade. Crianças e bêbados, já foi escrito, possuem estranho compromisso com o verídico.
Anos atrás, uma amiga decidiu carregar um pouco na tradição familiar. Ela me disse que acabava de retornar “da fazenda” do pai. A filha que nos escutava (tinha algo como 10 anos) quase gritou: “Fazenda, mãe? Aquilo não é nem sítio!”. Menina inconveniente, desagradável, pouco educada e, como descobri depois, mais exata na descrição da propriedade rural. Era mais uma casinha cercada de árvores singelas do que um latifúndio.
A pessoa que abre a boca de forma inconveniente, revelando contradições e trazendo à luz inconsistências, pode ser um … boquirroto. Também empregamos o termo para designar quem não guarda segredo. Quando o objeto da indiscrição não somos nós, nada mais divertido do que esse ser. Funciona como a criança do conto A Roupa Nova do Rei (de Hans Andersen): diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público. O indiscreto libera demônios coletivos reprimidos pelo medo e pela inconveniência.
Aprendi muito cedo que a liberdade de expressão, quando anunciada, é um risco. Aprendi que o cuidado deve ser redobrado diante do convite à sinceridade. Existem barreiras intransponíveis, pontos cegos, muralhas impenetráveis no mundo humano. Uma delas é a situação em que uma pergunta envolve uma crença fundamental da pessoa.
Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo: invejo-os.
Se vocês dizem o que querem, na hora que desejam, vocês têm uma ou todas as seguintes características: riqueza extrema, poder político enorme, tamanho físico intimidador, equipe de segurança numerosa, total estabilidade afetiva, autonomia diante do mundo, saúde plena e coragem épica. Sem nenhuma das oito características anteriores, eu, humilde mortal, prometo, lacanianamente*, dizer-lhes a verdade que vocês estão preparados para ouvir. Da mesma forma, direi a minha verdade: limitada, cheia de impurezas e concepções equivocadas, ou seja, a que eu estou preparado para enunciar. O demônio é o pai da mentira, porque ele não é onipotente. A verdade total pertence a Deus. Nós? Adeus e alguma esperança...
(Leandro Karnal, O boquirroto. Diário da Região, 19.06.2022. Adaptado)
* Referência ao psicanalista Jacques Lacan.
A alternativa em que o trecho destacado está reescrito de acordo com a norma-padrão de colocação do pronome átono é:
- Falam o que não devem porque dizem a verdade / dizem-na.
- Também empregamos o termo / empregamo-lo.
- Da mesma forma, direi a minha verdade/ direi-a.
- A pessoa que abre a boca de forma inconveniente / abre-a.
- Crianças e bêbados, já foi escrito, possuem estranho compromisso / possuem-no.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A oração traz, entre vírgulas, a expressão já foi escrito, que funciona como inciso; por isso o verbo possuem inicia uma nova sequência após pontuação. Na norma-padrão, quando o verbo vem no início de frase ou logo após sinal de pontuação, predomina a ênclise — o pronome átono coloca‑se depois do verbo.
O sintagma estranho compromisso é objeto direto masculino singular; o pronome oblíquo átono correspondente é o. Colocado em posição enclítica, une‑se ao verbo por hífen: possuem‑no (possuem + o).
Resumo prático: início de oração/pospondo ao verbo → ênclise; encaixe com hífen forma a grafia correta possuem‑no.
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