Questão FC409262
Os jornais Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz: – Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Í
Colocação Pronominal
VUNESP · 2023
Os jornais
Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:
– Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz…” Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
“Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na face, culminando em um beijo na orelha esquerda.
Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, murmurando as seguintes palavras: ‘Meu amor’, ao que ele retorquiu: ‘Deolinda’.”
E meu amigo:
– Se um repórter redigir essas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida…
(Rubem Braga. A borboleta Amarela. 10a ed. – Rio de Janeiro: Record, 1998. Excerto adaptado)
Considere o seguinte trecho redigido com base no texto:
do momento em que sua esposa erguia os braços para segurar uma lâmpada, o Sr. Arlindo na face, atitude essa que ainda o privilégio de ouvir a mulher murmurar as seguintes palavras: “Meu amor”, ao que ele retorquiu: “Deolinda”.
Em conformidade com a norma-padrão da língua, as lacunas do texto devem ser preenchidas, respectivamente, com:
- Aproveitando-se … lhe beijou … rendeu-o
- Se aproveitando … a beijou … rendeu-lhe
- Se aproveitando … beijou-a … lhe rendeu
- Aproveitando-se … beijou-lhe … o rendeu
- Aproveitando-se … beijou-a … lhe rendeu
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Aproveitando-se é a forma correta porque a oração inicia-se pelo verbo no gerúndio; a norma-padrão prefere a ênclise aqui, evitando iniciar a oração por pronome átono (*se aproveitando* seria inadequado).
Beijou‑a: o verbo beijar é transitivo direto, exigindo complemento sem preposição. Como o complemento remete à esposa (fem.), usa‑se o pronome oblíquo átono a na função de objeto direto.
Lhe rendeu: o verbo render aceita objeto direto (a oração "o privilégio de ouvir...") e objeto indireto (quem recebe esse privilégio). Nesse contexto, a pessoa beneficiada exige o pronome oblíquo átono lhe como objeto indireto.
Assim, a sequência Aproveitando‑se … beijou‑a … lhe rendeu respeita regência verbal e colocação pronominal da norma‑padrão.
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