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Questão FC409277

Leia o texto, para responder a questão. Em um piano distante alguém estuda uma lição lenta, em notas graves. De muito longe, de outra esquina, vem também o som de um realejo. Conhe

Colocação Pronominal

VUNESP · 2023

Leia o texto, para responder a questão.

 

Em um piano distante alguém estuda uma lição lenta, em notas graves. De muito longe, de outra esquina, vem também o som de um realejo. Conheço o velho que o toca, ele anda sempre pelo meu bairro; já fez o periquito tirar para mim um papelucho em que me são garantidos 93 anos de vida, muita riqueza, poder e felicidade.

 

Ora, não preciso de tanto. Nem de tanta vida nem de tanta coisa mais. Dinheiro apenas para não ter as aflições da pobreza; poder somente para mandar um pouco, pelo menos, em meu nariz; e da felicidade um salário mínimo: tristezas que possa aguentar, remorsos que não doam mais, renúncias que não façam de mim um velho amargo.

 

Joguei uma prata da janela, e o periquito do realejo me fez um ancião poderoso, feliz e rico. De rebarba me concedeu 14 filhos, tarefa e honra que me assustam um pouco. Mas os periquitos são muito exagerados, e o costume de ouvir o dia inteiro trechos de ópera não deve lhes fazer bem à cabeça. Os papagaios são mais objetivos e prudentes, e só se animam a afirmar uma coisa depois que a ouvem repetidas vezes.

 

Agora não se ouve mais o realejo; o piano recomeça a tocar. Esses sons soltos, e indecisos, teimosos e tristes, de uma lição elementar qualquer, têm uma grave monotonia. Deus sabe por que acordei hoje com tendência a filosofia de bairro; mas agora me ocorre que a vida de muita gente parece um pouco essa lição de piano. Nunca chega a formar a linha de uma certa melodia. Começa a esboçar, com os pontos soltos de alguns sons, a curva de uma frase musical; mas logo se detém, e volta, e se perde numa incoerência monótona. Não tem ritmo nem cadência sensíveis. Para quem a vive, essa vida deve ser penosa e triste como o esforço dessa jovem pianista de bairro, que talvez preferisse ir à praia, mas tem de ficar no piano.

 

(Rubem Braga, O vassoureiro, em O homem rouco. Adaptado)

 

No processo de produção de texto escrito, o professor poderá abordar com os alunos a colocação dos pronomes átonos segundo a perspectiva fonético-sintática, caracterizando as estruturas do padrão culto do português do Brasil.

 

Nessa abordagem, será apontada como adequada a nova redação dada ao enunciado na alternativa:

  1. Nunca chega a formar a linha de uma certa melodia, nunca harmoniza-se de forma agradável.
  2. Os papagaios são mais objetivos e prudentes, e só se animam a afirmar uma coisa tendo ouvido-a repetidas vezes.
  3. Agora não se ouve mais o realejo; o piano recomeça a tocar. Se pudesse, eu silenciaria-o também.
  4. De muito longe, de outra esquina, vem também o som de um realejo, e mal ouço-o de onde estou.
  5. De rebarba me concedeu 14 filhos, tarefa e honra que me assustam um pouco; na verdade, aterrorizam-me.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A opção apresenta ênclise: o pronome oblíquo átono aparece posposto ao verbo em "aterrorizam-me".

Regra prática: quando uma nova oração começa (aqui, após ponto e vírgula) ou o verbo assume posição inicial efetiva, a colocação culta recomenda a ênclise. No caso, a locução adverbial na verdade, seguida de vírgula, funciona como elemento introdutório; não atrai o pronome, que, portanto, fica unido ao verbo.

Além disso, a mesóclise é restrita aos tempos futuros ("futuro do presente" e "futuro do pretérito") e, por isso, não se aplica aqui. Assim, "aterrorizam-me" é a opção gramaticalmente correta e culta para a redação proposta.

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