Questão FC409320
Como falei nesta coluna, Richard Moneygrand, meu velho mentor, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e ficou com seu lado esquerdo paralisado. Assim que soubemos, entramos em
Colocação Pronominal
VUNESP · 2023
Como falei nesta coluna, Richard Moneygrand, meu velho mentor, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e ficou com seu lado esquerdo paralisado. Assim que soubemos, entramos em contato. Seguem, com a devida censura aos expletivos que são parte das nossas conversas, trechos que podem ajudar outras vítimas da vida e de seu próprio corpo, como sublinhou meu amigo.
“E aí, Dick, como está?” “Estou bem. O mais estranho está passando.”
“Me traduz esse ‘estranho’...”(a)
“Meu lado esquerdo – braço, perna e a minha imprescindível mão – fugiu do controle, foi paralisado. Era como se tivessem aplicado neste lado do meu corpo uma poderosa anestesia. Eu queria escrever e o braço e a mão não se mexiam(b) – e era impossível mover a perna! No entanto, meu caro Roberto, a minha consciência (que é a minha alma) estava intacta. Ela pensava em tudo, e pedia o que queria, mas esse pedaço do meu corpo estava fora de mim e definitivamente contra mim. Senti-me despedaçado. Minha consciência estava inteira; meu corpo, porém, estava partido...”
“Não dramatiza, Dick. Vamos com calma...”
“Calma é a palavra de ordem no Brasil! Fiquei intrigado e surpreendido com essa subversão do meu lado esquerdo porque sou canhoto. Como é que o meu corpo (o único que possuo) fez isso comigo? Em algumas horas, foi-se um lado.(c)
Ora, isso só ocorre com um humano que, a partir do nascimento, começa uma luta para inventar e domar o seu corpo.
Um combate curioso porque, no fim, a gente sabe que o corpo vai embora.”
“Deve ser doloroso sentir essa divisão...”
“Mais que isso, o nosso corpo é o instrumento pelo qual atuamos no mundo. Ele é vida e a minha mais triste experiência foi sentir que um lado dele havia me abandonado.
Esse sentimento de uma meia-morte só me abandonou quando comecei a mexer o braço e a andar.”(d)
“Bob (era assim que ele me chamava quando queria me provocar), quando um pedaço da sua subjetividade não lhe obedece,(e) a vida vira um barco numa tempestade e você pensa que vai morrer; aliás, mais que isso, você fica meloso – e, muito pior, você tem pena de si mesmo e pode até chorar.
É triste sentir essa covardia, esse medo real da morte que, cedo ou tarde, virá...”
A essa altura, quem estava sentindo a perna dormente era eu que, no meu raro mutismo, ouvia parte dessas confidências que meu amigo considerava vergonhosas. E eu, brasileiro, ouvia comovido porque, como todo mundo, jamais deixei de temer a morte, mas pensava (também como todo mundo) que ela estava sempre longe, muito longe de todos nós.
(Roberto da Mata, Reflexões de um enfermo. https://digital.estadao.com.br, 19.07.2023. Adaptado)
Assinale a alternativa em que a palavra ou expressão destacada está corretamente substituída nos parênteses, de acordo com a norma-padrão.
- Me traduz esse ‘estranho’... (Traduz-me).
- ... o braço e a mão não se mexiam (não mexiam-se).
- ... foi-se um lado. (o foi).
- ... só me abandonou quando comecei a mexer o braço e a andar. (só abandonou-me).
- ... quando um pedaço da sua subjetividade não lhe obedece... (não o obedece).
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Gabarito
A
Comentário do professor
Na oração interrogativa com sentido de pedido "Me traduz esse 'estranho'...?", o pronome me é um pronome oblíquo átono que, segundo a norma-padrão, deve vir posposto ao verbo no início da frase ou em formas verbais no imperativo afirmativo. Por isso, a forma culta é "Traduz-me esse 'estranho'...?".
A colocação ênclítica (pronome depois do verbo) é indicada aqui: o pronome se une ao verbo por hífen no imperativo ("Traduz-me"). A ordem Me traduz corresponde à próclise (pronome antes do verbo), que é frequente na fala coloquial, mas não atende ao padrão formal no começo da oração.
Logo, "Traduz-me" respeita a norma culta ao posicionar corretamente o pronome oblíquo.
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