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Questão FC409396

Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Como se a culpa do que não somos ou não podemos ser fosse sempre do outro, esse bode expiatório

Colocação Pronominal

VUNESP · 2021

Leia o texto, para responder à questão.

A psicanalista Maria Homem diz que o ressentimento é a palavra-chave para ousar compreender o mundo hoje. Luiz Filipe Pondé acredita que o ressentimento faz de nós incapazes de ver algo simples: o universo é indiferente aos nossos desejos; além de destruir em nós a capacidade de pensar e compreender a realidade.

 

Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Como se a culpa do que não somos ou não podemos ser fosse sempre do outro, esse bode expiatório que escolhemos quando não podemos nos haver com nossos próprios limites. Ressentir-se é uma impossibilidade de esquecer ou superar um agravo. Seria uma impossibilidade ou uma recusa?

 

O ressentido não é alguém incapaz de perdoar ou esquecer, é alguém que não quer esquecer, não quer perdoar, nem superar o mal que o vitimou. O filósofo Max Scheler classifica como “auto envenenamento psicológico” o estado emocional do ressentido, um ser introspectivo ocupado com ruminações acusadoras e fantasias vingativas.

 

O ressentido é um escravo de sua impossibilidade de esquecer, vivendo em função de sua vingança adiada, de maneira que em sua vida não é possível abrir lugar para o novo; trata-se de um vingativo passivo, e suas queixas contínuas mobilizam, no outro, confusos sentimentos de culpa. Na verdade, ele acusa, mas não está seriamente interessado em ser ressarcido do agravo que sofreu. No ressentido, permanece uma dívida impagável, a compensação reivindicada é da ordem de uma vingança projetada no futuro. O ressentido é um covarde, pois não concede a si mesmo os prazeres da vingança pelo exercício da ação. Esse desejo de vingança recusado é o núcleo doentio do ressentimento nietzschiano. Uma vez que não se permite reagir, só resta ao fraco ressentir.

 

Por não esquecer, o ressentido não consegue entregar -se ao fluxo da vida presente. A memória é como uma doença, o tempo não pode ser detido, a vontade não pode “querer pra trás”, ou seja, corrigir o curso de suas escolhas passadas.

 

A solução para o ressentimento não é negá-lo, mas nomeá-lo, informar-se sobre ele, perceber que é impossível não o ter em nós em alguma medida. “Conhece-te a ti mesmo”, foi o conselho dado pelo sábio filósofo Sócrates, no século V a.C. Quem sabe tenhamos a coragem e as ferramentas para compreender essa emoção, e, com isso, podermos nos colocar além do ressentimento. Talvez possamos um dia transformar esse sentimento e, assim, criar um novo modo de estar com o outro.

 

(Luciana Ribeiro Soubhia, Ressentimento. Revista Bem-estar, 04-07-2021. Adaptado)

 

Assinale a alternativa de acordo com a norma-padrão de colocação dos pronomes átonos e de emprego do verbo “haver”.

  1. Se nos houvéssemos com nossos próprios limites, talvez não se criassem bodes expiatórios.
  2. Já houveram diversos estudos acerca do ressentimento, como claramente constata-se no texto.
  3. É consenso que, entre os ressentidos, haviam muitos propensos a vingar-se, sem motivo aparente.
  4. Conhecemos pessoas de bem que nunca havia tido a experiência de confrontar-se com um ressentido.
  5. É recomendável que hajam mais estudos para que se conheçam melhor as atitudes de um ressentido.
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Gabarito

A

Comentário do professor

A frase Se nos houvéssemos com nossos próprios limites, talvez não se criassem bodes expiatórios. está correta porque emprega adequadamente o verbo haver-se e a colocação pronominal.

O verbo haver-se, aqui com sentido de dar conta de / lidar com, é pronominal e flexiona normalmente, concordando com o sujeito implícito nós; por isso usa-se houvéssemos e não a forma impessoal.

A posição do pronome nos antes do verbo decorre da regra da próclise: em orações subordinadas introduzidas por conjunção condicional (se), o pronome átono vem antes do verbo — se nos houvéssemos.

Em talvez não se criassem bodes expiatórios, o se funciona como índice de voz passiva/indeterminação; há sujeito posposto, bodes expiatórios, plural, portanto o verbo concorda em plural: criassem.

Assim, a construção respeita tanto a colocação pronominal quanto a concordância verbal exigidas pela norma-padrão.

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