Questão FC409423
Noite de autógrafos Escritores, principalmente de ficção, mentem muito – ou não seriam escritores de ficção. Mas ninguém mente mais que escritores em campanha de lançamento de um l
Colocação Pronominal
VUNESP · 2020
Noite de autógrafos
Escritores, principalmente de ficção, mentem muito – ou não seriam escritores de ficção. Mas ninguém mente mais que escritores em campanha de lançamento de um livro, não importa o gênero. A noite de autógrafos, por exemplo, é um terreno fértil para tal autor delirar e sair dizendo, no dia seguinte, que assinou muito mais livros do que os modestos 15 ou 20 que autografou na vida real.
Minha história favorita é a da bela romancista bissexta que, há anos, teria autografado 2 000 livros de uma sentada, numa livraria em São Paulo. Já com uma certa prática na matéria, fiz os cálculos. Dois mil livros? Vamos supor que a autora tenha recebido cada leitor à mesa, aceitado o seu beijo, trocado com ele uma única e simpática frase, deixado fotografar-se abraçada ao dito, escrito algo bem simples, assinado, devolvido o livro, aceitado outro beijo e dito tchau – e tudo isso em 1 minuto cravado.
Significa que os 2 000 livros lhe terão tomado 2 000 minutos. Ou seja, ela ficou sentada por 33 horas e 20 minutos, assinando sem parar. Nem os megassellers* americanos que aportam aqui e carimbam os livros em vez de assiná-los conseguiriam tal proeza.
Já o autor mais consciencioso, em meio à sessão, dá uma espiada na fila, constata que ela está muito comprida e tenta apressar o processo. Mas nem sempre é possível, porque quem vai a tais eventos quer mais que um autógrafo – quer também trocar uma palavra com o autor e sentir, ao vivo, se ele se parece com o que escreve.
É um momento bonito esse encontro do escritor com seus leitores. E não importa que tenha sido uma noite de 15 ou 20 autógrafos – ou de imaginários 2 000.
(Ruy Castro. A arte de querer bem. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2018, p. 59-60)
* megassellers: escritores que atingem a marca de milhões de exemplares vendidos.
A colocação do pronome atende à norma-padrão da língua portuguesa na seguinte alternativa:
- Entre os leitores, ninguém contenta- se em receber um autógrafo sem a devida atenção do escritor.
- Se disseminou a crença de que a mentira é frequentemente empregada entre os escritores de ficção.
- Caso preocupe- se apenas com o retorno financeiro, o autor deixará de buscar o encontro com o seu leitor.
- As obras de ficção permanecem interessantes mesmo que se constate a irrealidade dos eventos narrados.
- Alguns escritores americanos já não ocupam- se mais em usar caneta, e sim carimbos, ao conceder autógrafos.
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Gabarito
D
Comentário do professor
As obras de ficção permanecem interessantes mesmo que se constate a irrealidade dos eventos narrados.
A conjunção subordinativa de concessão mesmo que exige, na norma-padrão, a colocação do pronome átono antes do verbo — ou seja, **próclise**. Por isso "se constate" está corretamente posicionado, com o pronome antecedendo "constate".
Além disso, o se da oração tem valor de **índice de indeterminação do sujeito / voz passiva sintética**, conferindo caráter impessoal à oração subordinada ("constata‑se a irrealidade"). Assim, a construção é gramatical e mantém o sentido pretendido.
Portanto, a alternativa apresentada respeita as regras de colocação pronominal e a função sintática do se.
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