Questão FC409516
O futebol do absoluto Era uma vez uma arte chamada futebol, em que 22 sujeitos, divididos em dois grupos, disputavam uma bola que deveria ser mandada para dentro das redes adversár
Colocação Pronominal
VUNESP · 2019
O futebol do absoluto
Era uma vez uma arte chamada futebol, em que 22 sujeitos, divididos em dois grupos, disputavam uma bola que deveria ser mandada para dentro das redes adversárias. Mais ou menos à parte, ficava o juiz, com a função de interromper o espetáculo se um dos adversários fizesse algo contra as regras, como pôr a mão na bola ou aleijar um oponente sem motivo justo.
Ao redor do campo, postavam-se as grandes massas – a torcida –, gritando “Vai! Vai!”, fazendo “Úuu!”, pulando a cada gol de suas cores ou, com frequência, discordando do juiz.
O bonito é que todos ali, jogadores, juiz, espectadores, eram seres humanos, apaixonados, por isso falíveis, sujeitos a erros de interpretação e a ver ou deixar de ver coisas que pareciam óbvias para um ou para o outro lado. Era o império do relativo, do subjetivo – daí o seu fascínio, que fazia com que cada jogo continuasse sendo discutido nos botequins, escritórios e até em casa por dias, semanas e anos, sem que se chegasse a um acordo. Uma bola nas redes, com o juiz apontando e o bandeirinha correndo para o centro do campo, era só o que se precisava para pular, abraçar e beijar quem estivesse do nosso lado na arquiba.
Não mais. Agora, a cada gol, ninguém pula ou se beija ou se abraça, nem os jogadores. Assim que a bola estufa a rede, o juiz leva a mão à orelha e se põe em posição de atenção. Dali, corre em direção a um aparelho de TV fora do campo – o VAR –, diante do qual se demora quatro ou cinco minutos, enquanto nós ficamos aflitos, sôfregos, expectantes. E só então, quando ele volta ao campo e faz esse ou aquele gesto, descobrimos se temos autorização para vibrar ou não.
O futebol se tornou o império do absoluto. Uma máquina tem agora o poder de nos tornar, como diria Nelson Rodrigues, uma multidão de idiotas da objetividade.
(Ruy Castro, “O futebol do absoluto”. Folha de S.Paulo, 26.06.2019. Adaptado)
Assinale a alternativa em que a colocação pronominal atende à norma-padrão.
- Ali postavam-se as grandes massas – a torcida –, gritando “Vai! Vai!” fazendo “Úuu!”
- Se discutia cada jogo, depois que acabava, nos botequins, escritórios e até em casa.
- Quando abraçava-se quem estivesse do lado era porque o time havia feito um gol.
- Assim que a bola estufa a rede, o juiz rapidamente põe-se em posição de atenção.
- Uma máquina – o VAR – agora nos torna uma multidão de idiotas da objetividade.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Na frase Uma máquina – o VAR – agora nos torna uma multidão de idiotas da objetividade, a colocação pronominal está correta.
O advérbio agora atua como palavra atrativa de próclise, ou seja, exige que o pronome oblíquo átono venha antes do verbo. Por isso nos aparece antes de torna: "agora nos torna".
Além disso, nos desempenha função de objeto direto; colocá‑lo antes do verbo atende à norma‑padrão quando há elemento atrativo no início da oração. Sem esse elemento, a ênfase formal poderia permitir a enclise ("torna‑nos"), mas diante de agora a próclise é a forma adequada.
Portanto, a construção demonstra aplicação correta das regras de colocação pronominal.
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