Questão FC409569
‘Me corrige’, pede o pronome Uma das principais marcas do português brasileiro permanece alijada da escrita Me parece cada vez mais claro que o pronome átono em início de frase, co
Colocação Pronominal
VUNESP · 2018
‘Me corrige’, pede o pronome
Uma das principais marcas do português brasileiro
permanece alijada da escrita
Me parece cada vez mais claro que o pronome átono em início de frase, como o que acabo de cometer(A), será o último dos últimos tabus normativos a ser quebrado pelo inexorável abrasileiramento da língua que se entende e se pratica como nossa norma culta.
É claro que me refiro à língua escrita(B). Sabe-se que, falando, a maior parte dos brasileiros(C) iniciaria assim esta frase: “Se sabe que...”. Isso inclui pessoas de alta escolaridade e não exclui situações em que a comunicação prevê certa cerimônia.
No livro “Oficina de Texto”, um guia de redação sensatamente equilibrado entre tradição e modernidade, o linguista Carlos Alberto Faraco e o romancista Cristovão Tezza, colunista da Folha, escrevem o seguinte: “Resta praticamente uma única regra universal na colocação de pronomes da língua-padrão escrita: jamais comece uma sentença com pronome átono”.
Logo em seguida reconhecem que talvez esse não seja bem o único mandamento restante. Para poupar dor de cabeça com revisores e corretores de provas, dizem, vale a pena seguir também a regra “bastante duvidosa” das tais palavras atrativas, como “que”, “quando” e “não”, que sempre puxariam o pronome átono para junto de si.
No mais, Faraco e Tezza dão ao leitor a bússola de colocação pronominal que julgo definitiva: “Prefira a forma que soar melhor”. Se você é brasileiro, isso exclui quase certamente a mesóclise, além de limitar a lusitana ênclise. Nossa inclinação é naturalmente proclítica.
O gramático Manuel Said Ali (1861-1953) foi um pioneiro defensor da colocação de pronomes à moda da casa, contra o lusocentrismo dominante em sua época e ainda hoje presente na gramática normativa.
Argumentava que “a pronúncia brasileira diversifica da lusitana; daí resulta que a colocação pronominal em nosso falar espontâneo não coincide perfeitamente com a do falar dos portugueses”.
Tudo isso é lindo, mas convém ter sempre em mente o último tabu. Me faça o favor de contrariar sua fala e escrever “Faça-me o favor”(D), a menos que queira marcar uma posição. Se prepare, nesse caso, para as consequências(E).
(Sérgio Rodrigues, “‘Me corrige’, pede o pronome”.Em: Folha de S.Paulo, 02.08.2018. Adaptado)
De acordo com Manuel Said Ali, “a pronúncia brasileira diversifica da lusitana; daí resulta que a colocação pronominal em nosso falar espontâneo não coincide perfeitamente com a do falar dos portugueses”. Uma frase do texto que comprova essa explicação do gramático e revela a tendência brasileira de colocação pronominal é:
- ... como o que acabo de cometer...
- É claro que me refiro à língua escrita.
- Sabe-se que, falando, a maior parte dos brasileiros...
- ... e escrever “Faça-me o favor” ...
- Se prepare, nesse caso, para as consequências.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
"Se prepare, nesse caso, para as consequências."
Nessa oração, o pronome oblíquo átono se aparece antes do verbo (próclise), ou seja, colocado à esquerda de "prepare".
Manuel Said Ali afirma que a colocação pronominal brasileira difere da lusitana; esta frase exemplifica essa diferença: ela reproduz uma solução típica do falar brasileiro, que favorece a próclise no início da sentença.
No modelo normativo escrito tradicional, contudo, evita‑se iniciar a frase com pronome clítico; a forma culta exigiria a ênclise ("Prepare‑se"). Assim, a alternativa mostra, de modo direto, a tendência brasileira apontada por Ali.
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