Questão FC409647
Como um sapato pode ser tudo?
Colocação Pronominal
VUNESP · 2015
Leia a crônica “Ser Tudo”, de Walcyr Carrasco, para responder à questão.
Ao entrar na sala de um amigo, observo uma luminária idêntica a um chifre. Ele a exibe, orgulhoso.
– Phillipe Starck1. Só existem três no Brasil.
Atarraxo um sorriso de admiração. Como dizer que parece o despojo2 de uma fantasia de Carnaval? Entusiasmado, ele aconselha:
– Na loja havia uma cadeira de couro de vaca incrível, assinada. Você precisa comprar.
– Mas não preciso de mais uma cadeira.
– É uma oportunidade única, e você vai jogar fora?
Suspiro. É impressionante como as pessoas dão valor a grifes. Há bastante tempo vi uma linda carteira Louis Vuitton com desenho quadriculado. Fui verificar. Meus documentos não cabiam. O vendedor explicou:
– É que os documentos europeus são de tamanho menor.
Os nossos ficam sobrando.
Agradeci e ia sair da loja. Um amigo que me acompanhava se escandalizou.
– Não vai levar?
– Onde vou botar minha identidade?
– Mas, quando você abrir a carteira, todo mundo vai notar. É chique.
Sou do tipo que só compra quando gosta e espanto-me quando vejo as pessoas se digladiando para ser elegantes.
É só observar a mania de conhecer vinhos. Se parte das pessoas se dedicasse a estudar os gregos com o mesmo afinco com que decora rótulos, teríamos um país de filósofos. Guerra semelhante acontece entre os que se dizem conhecedores de charuto. O fato é que a maioria seria incapaz de distinguir um cubano de um cigarro de palha do sítio. Respeito os apreciadores das coisas boas da vida. Mas é terrível
ver alguém bebendo e fumando só para parecer o que não é, nem precisa ser.
Inventaram até uma expressão para dizer que alguma coisa é chique e imprescindível. Estava em uma famosa loja de roupas masculinas. A gerente conversava com um rapaz e comentou:
– Seu sapato é tudo.
O elogiado sorriu como se tivesse ganho a Mega-Sena.
– Eu sei. É mesmo. Tudo.
Como um sapato pode ser tudo?
Falando assim, parece que estou me referindo aos ricos ou à classe média abastada. Coisa nenhuma. Muitas pessoas gastam o pouco que ganham para ter roupa com etiqueta. Quanto mais jovens, mais estritos3: é preciso usar os tênis que todos usam, botar o jeans, a calça. Caso contrário, serão desdenhados como o patinho feio. Fico pensando: nessa ânsia por ser especiais, as pessoas tornam-se idênticas. Ser “tudo” acaba sendo um bom caminho para terminar em nada.
(VejaSP, 05.04.2000. Adaptado)
1. Phillipe Starck: designer francês
2. despojo: resto, sobra
3. estrito: rigoroso, exato
A colocação pronominal está em conformidade com a norma-padrão da língua portuguesa em:
- Muitas pessoas adquirem roupas e objetos de grife na esperança de que transformem-se em indivíduos elegantes.
- Na opinião do narrador, na ânsia por serem especiais, as pessoas frequentemente se tornam idênticas umas às outras.
- Em tratando-se das imposições sociais, há indivíduos que seguem à risca os padrões estéticos determinados, pois não querem ser o patinho feio.
- Se os documentos coubessem na carteira, provavelmente o narrador teria comprado-a.
- Ao questionar a importância dada às grifes, o narrador não limita-se ao comportamento das pessoas abastadas.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa expressa com precisão a ideia central do texto: o narrador critica a busca por distinção por meio de grifes, rótulos e comportamentos afetados — exemplos como a luminária, a carteira, a mania de conhecer vinhos e charutos ilustram que, «na ânsia por ser especiais», as pessoas acabam imitando-se mutuamente; o trecho final, “Ser ‘tudo’ acaba sendo um bom caminho para terminar em nada”, resume essa crítica.
Do ponto de vista formal, a construção “frequentemente se tornam” está em conformidade com a norma-padrão: o advérbio colocada antes do verbo atrai o pronome oblíquo, resultando em próclise, que é a posição correta nesse contexto.
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