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Questão FC409658

– Que relógio?

Colocação Pronominal

VUNESP · 2014

Leia o texto para responder à questão.

 

O coração aos pulos. Aquele cheque na bolsa... Meu Deus, me protege, me guia, me salva!

 

Ao sair do escritório, com o negócio fechado, dona Irene sentia-se leve, até orgulhosa de haver cumprido a missão, na cidade. Nem reparou que um sujeito alto a seguia, quase tocando no seu ombro.

 

Quando reparou, pois ele encostara demais no seu braço e até o puxara, ficou branca, passou a mão no pulso, estava sem o relógio. Gritou desesperada:

 

– Ladrão! Pega ladrão! Roubou meu relógio! Pega!

 

Se havia muita gente no local, de repente apareceu mais ainda. O bolo se adensou, e era difícil as pessoas se mexerem. O homem que agarrara o braço de dona Irene queria correr, mas aí é que não dava mesmo jeito de escapar. Num lance rápido, ele colocou alguma coisa na mão dela, que não compreendeu bem o gesto mas apertou o objeto, e só um instante depois viu que era o relógio. Quando deu fé que este lhe fora restituído – coisa surpreendente, difícil de acreditar e mais ainda de acontecer –, já o cara tinha sumido.

 

Coração aos pulos, emocionada pelo roubo e pela devolução imprevista, o que dona Irene desejou foi tomar um helicóptero e fugir incontinenti dali. Como não há helicópteros à disposição de senhoras aflitas, ela tomou um táxi para chegar em casa ainda arfante, com o multíplice receio do que pudesse acontecer até abrir a porta do apartamento – e mesmo depois, quem sabe lá o que pode irromper de terrível hoje em dia?

 

O marido, na cama, foi despertado pelo puxão nervoso e pelas palavras ainda mais nervosas de dona Irene:

 

– Imagina: me roubaram e me devolveram meu relógio!

 

– Que relógio?

 

– Este aqui – e ela estendeu o pulso, esquecida de que o pusera na bolsa, sem tempo e sem calma para atar novamente a pulseira, depois do fato. Abriu a bolsa e exibiu o relógio recuperado.

 

– Mas você não levou relógio nenhum, filha. Você esqueceu ele na mesinha de cabeceira. Está ali. Quando eu dei fé, corri à janela para avisar, mas não vi mais você.

 

Sujeito assustado, aquele ladrão! Mais medroso do que a medrosa dona Irene.

 

(Carlos Drummond de Andrade, As palavras que ninguém diz. Adaptado)

 

Para responder à questão, considere o trecho do penúltimo parágrafo: – Mas você não levou relógio nenhum, filha. Você esqueceu ele na mesinha de cabeceira.

 

O trecho está corretamente reescrito, quanto ao sentido e à norma-padrão, em:

  1. Mas você não levou algum relógio, filha. Se esqueceu dele na mesinha de cabeceira.
  2. Mas você não levou nenhum relógio, filha. Você esqueceu-lhe na mesinha de cabeceira.
  3. Mas você levou relógio algum, filha. O esqueceu na mesinha de cabeceira.
  4. Mas você levou algum relógio, filha. Você lhe esqueceu na mesinha de cabeceira.
  5. Mas você não levou relógio algum, filha. Você o esqueceu na mesinha de cabeceira.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A frase está correta porque o advérbio indefinido algum, colocado à direita do substantivo (relógio), assume valor negativo equivalente a nenhum quando acompanhado de não: “Mas você não levou relógio algum” = “não levou nenhum relógio”.

Quanto ao complemento, o verbo esquecer é transitivo direto; portanto, o pronome oblíquo adequado para retomar relógio é o (objeto direto): “Você o esqueceu na mesinha de cabeceira.”

Sobre colocação pronominal, a forma apresentada usa próclise (pronome antes do verbo), amplamente aceita no português do Brasil; formalmente também se admite a ênclise (“Esqueceu‑o”), mas isso não compromete a correção nem o sentido da oração.

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