Questão FC409817
Quem se espanta com o espetáculo de horror diversificado que o mundo de hoje oferece faria bem se tivesse o dicionário como livro de leitura diurna e noturna. Pois ali está, na let
Semântica
VUNESP · 2021
Quem se espanta com o espetáculo de horror diversificado que o mundo de hoje oferece faria bem se tivesse o dicionário como livro de leitura diurna e noturna. Pois ali está, na letra M, a chave do temperamento homicida, que convive no homem com suas tendências angélicas, e convive em perfeita harmonia de namorados.
O consulente verá que matar é verbo copiosamente conjugado por ele próprio, não importa que cultive a mansuetude, a filantropia, o sentimentalismo; que redija projetos de paz universal, à maneira de Kant, e considere abominações o assassínio e o genocídio. Vive matando.
A ideia de matar é de tal modo inerente ao homem que, à falta de atentados sanguinolentos a cometer, ele mata calmamente o tempo. Sua linguagem o trai. Por que não diz, nas horas de ócio e recreação ingênua, que está vivendo o tempo? Prefere matá-lo.
Todos os dias, mais de uma vez, matamos a fome, em vez de satisfazê-la. O estudante que falta à classe confessa que matou a aula, o que implica matança do professor, da matéria e, consequentemente, de parte do seu acervo individual de conhecimento, morta antes de chegar a destino. No jogo mais intelectual que se conhece, pretende-se não apenas vencer o competidor, mas liquidá-lo pela aplicação de xeque-mate. Não admira que, nas discussões, o argumento mais poderoso se torne arma de fogo de grande eficácia letal: mata na cabeça.
Beber um gole no botequim, ato de aparência gratuita, confortador e pacificante, envolve sinistra conotação. É o mata-bicho, indiscriminado. Matar charadas constitui motivo de orgulho intelectual para o matador.
Se a linguagem espelha o homem, e se o homem adorna a linguagem com tais subpensamentos de matar, não admira que os atos de banditismo, a explosão intencional de aviões, o fuzilamento de reféns, o bombardeio aéreo de alvos residenciais, os pogroms, o napalm, as bombas A e H, a variada tragédia dos dias modernos se revele como afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano. Admira é que existam a pesquisa de antibióticos, Cruz Vermelha Internacional, Mozart, o amor.
(Carlos Drummond de Andrade, O verbo matar. Poesia e Prosa. Adaptado.)
As expressões copiosamente, mansuetude e filantropia, destacadas no segundo parágrafo, têm antônimos, correta e respectivamente, em:
- restritamente ... insolência ... altruísmo
- limitadamente ... violência ... misantropia
- prolixamente ... decrepitude ... solidão
- estritamente ... inclemência ... compartilhamento
- chorosamente ... brandura ... isolamento
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Gabarito
B
Comentário do professor
Analisemos a alternativa correta: ela propõe os antônimos de copiosamente, mansuetude e filantropia, respectivamente como limitadamente, violência e misantropia.
Copiosamente significa "de forma abundante, em grande quantidade". Seu antônimo é limitadamente, que indica restrição, pouca quantidade ou atuação com limites.
Mansuetud e refere-se à mansidão, docilidade e clemência. O termo oposto é violência, que expressa agressividade, dureza ou falta de mansidão.
Filantropia designa amor ao próximo, generosidade e preocupação pelos outros; seu antônimo é misantropia, isto é, aversão ou antipatia pela humanidade.
Portanto, a alternativa B apresenta corretamente os três sentidos contrários solicitados.
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