Questão FC409856
Leia o texto para responder à questão. Parece, mas não é A paisagem desmedida da língua, que nenhum ponto de vista abarca em sua inteireza, está cheia de coisas que parecem ser, ma
Morfologia
VUNESP · 2018
Leia o texto para responder à questão.
Parece, mas não é
A paisagem desmedida da língua, que nenhum ponto de vista abarca em sua inteireza, está cheia de coisas que parecem ser, mas não são. Vale a pena dar um zoom em algumas dessas arapucas, que as patrulhas do sabichonismo adoram explorar para exercer seus mesquinhos poderes sobre falantes desavisados.
Pode parecer que a expressão correta é “um peso e duas medidas”, embora não seja. O certo é mesmo aquilo que todo mundo sempre falou: “dois pesos e duas medidas”.
Pode parecer também que o provérbio “Quem tem boca vai a Roma” contém um erro constrangedor, pois o certo é “Quem tem boca vaia Roma”, ou seja, exerce o saudável direito de protestar contra a tirania dos césares. Só que isso é uma falácia¹. Quem sabe perguntar chega aonde quiser, eis a moral do ditado. Assim como sempre soubemos, até surgirem os sabichões. Vaia neles!
Pode parecer ainda que a palavra “aluno” tem origem num vocábulo latino que quer dizer “sem luz”, motivo pelo qual deve ser evitada, uma vez que trai uma concepção pedagógica anacrônica² em que o professor sabe tudo e o estudante não sabe nada. Repetida até por educadores, essa “tese” é uma bobagem. O latim alumnus quer dizer criança de peito e, por extensão, discípulo, aquele que precisa ser nutrido para crescer. Só isso.
Pode parecer que a contração “num”, empregada no parágrafo anterior, é um coloquialismo que, na sua informalidade de bermuda e chinelo, deve ser evitado a todo custo na linguagem escrita. É o que vêm repetindo muitos professores nos últimos anos. Não procede. Um pouco de leitura nos ensina que autores clássicos da língua recorreram à eufonia de “num” e “numa” em textos apuradíssimos.
Pode parecer que quando dizemos “Não vejo ninguém” estamos dando curso a uma grosseria ilógica da língua portuguesa, sem perceber que uma negação anula a outra e que, se não vemos ninguém, alguém nós vemos. A verdade é que não existe nada mais tosco³ no mundo do sabichonismo do que supor que línguas naturais sejam submissas à linguagem matemática. A negação dupla, que reforça em vez de anular, é um recurso consagrado e de raízes profundas no português.
Pode parecer, enfim, que nossa língua detém o recorde mundial de pegadinhas, idioma dificílimo que só pós-doutores conseguem falar sem escorregar a cada frase. Mesmo que haja razões históricas para essa percepção, trata-se, em termos objetivos, de mais um engano. Se nos livrássemos dos patrulheiros sabichões e sua usina de erros imaginários, a paisagem já ficaria bem mais acolhedora.
(Sergio Rodrigues. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2017/11/
1932343-parece-mas-nao-e-defenda-se-dos-sabichoes-e-seuserros-
imaginarios.shtml. Acesso em 17.06.2018. Adaptado)
Glossário:
¹falácia – falatório, falar demais
²anacrônico – cronológico
³tosco – grosseiro
Assinale a alternativa cuja forma verbal em destaque expressa possibilidade de que um fato ou evento venha a se realizar.
- A negação dupla, que reforça em vez de anular, é um recurso consagrado e de raízes profundas no português.
- Como aliás sempre soubemos, até surgirem os sabichões.
- Quem sabe perguntar chega aonde quiser, eis a moral do ditado.
- É o que vêm repetindo muitos professores nos últimos anos.
- A verdade é que não existe nada mais tosco no mundo do sabichonismo do que supor que línguas naturais sejam submissas à linguagem matemática.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Na frase, sejam está no modo subjuntivo, concretamente no presente do subjuntivo. Esse modo verbal marca atitudes do falante diante de um fato como hipótese, desejo, dúvida ou possibilidade.
Aqui o verbo supor introduz uma ideia não factual: trata-se de uma suposição sobre as línguas naturais. Por isso a oração subordinada vem com que + subjuntivo (que sejam submissas), indicando que a condição é possível, mas não afirmada como real.
Em termos práticos, sejam equivale a “podem ser”/“pudessem ser” no sentido de hipótese. Morfologicamente, resulta da transformação do presente do indicativo (ex.: “são”) para o presente do subjuntivo (“que sejam”).
Portanto, sejam expressa possibilidade/hipótese, razão pela qual é a forma exigida no contexto.
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