Questão FC409866
Quem seria este interlocutor que o menino procurava?
Morfologia
VUNESP · 2018
Leia o texto de Miguel Sanchez Neto, para responder a questão.
Chovia demais naquela manhã, uma chuva calma que molhava o piso de vermelhão da varanda da casa onde morávamos, naquela época já de aluguel. Uma casa velha de madeira, a varanda circundada pela mureta de alvenaria. A chuva alagando o território onde aquele que fui brincava de escorregar no piso. Depois, ao longo da infância, eu ia continuar preferindo estas brincadeiras em pisos molhados aos rios e às piscinas, sendo esta, inclusive, uma das razões de nunca ter aprendido a nadar.
Havia umas figurinhas de decalque a água, provavelmente presente de meu pai, e comecei a molhá-las no chão e transferi-las para a parede da casa. A chuva continuava seu trabalho lá fora, e eu fazia minhas pequenas mágicas, deixando inscrita nas paredes uma mensagem qualquer.
Não sei do que tratavam aquelas figurinhas, não me lembro nem da cor, nem da quantidade, nem da procedência, mas tudo isso não importa, o que marcou como minha primeira lembrança foi este ato primitivo de desenhar nas paredes da caverna, de deixar uma mensagem. Meus três anos não permitiam mais do que o ato vazio de tentar uma comunicação. Sozinho na varanda, a chuva a me isolar dos amigos e da família, a sensação de abandono me punha a escrever nas paredes, náufrago de um tempo lutando para estabelecer contatos.
Quem seria este interlocutor que o menino procurava?
Um amigo? Alguém da família? O pai sempre ausente, sempre fazendo negócios em outra cidade? As meninas que moravam na casa ao lado? Talvez todos, mas principalmente o adulto que a criança se tornaria. Essa criança queria falar comigo, por isso a imagem me ficou tão nítida na lembrança.
Há algumas cenas da rua que não consigo descrever. Mas a rua está perdida, lembro-me de um armazém grande numa esquina, a Casa Verde, de um portão que dava para um pátio, de algumas cercas de balaústres, e só. É melhor esquecer a geografia, ela não ficou arquivada em fotos – não tínhamos o hábito de fotografar.
(Chove sobre minha infância. Record, 2014. Adaptado)
Considere os trechos do texto.
• Depois, ao longo da infância, eu ia continuar preferindo estas brincadeiras... (1º parágrafo)
• Não sei do que tratavam aquelas figurinhas, não me lembro nem da cor, nem da quantidade... (3º parágrafo)
As formas verbais destacadas apresentam, correta e respectivamente:
- referência a um evento iniciado no passado e ainda em processo; suposição a respeito de evento que não se concretizou.
- referência a um evento iniciado no passado e ainda em processo; interrupção de uma ação devido à ocorrência de evento inusitado.
- incerteza a respeito das consequências de uma determinada ação; reflexão feita pelo narrador no momento da escrita do relato.
- ação ocorrida frequentemente no passado; suposição a respeito de evento que não se concretizou.
- ação ocorrida frequentemente no passado; reflexão feita pelo narrador no momento da escrita do relato.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
"ia continuar preferindo" está na locução verbal do pretérito imperfeito ("ia" + verbo), que em narrativa indica continuidade ou hábito no passado. A expressão "ao longo da infância" reforça esse valor: trata‑se de uma ação repetida/frequente que ocorria naquela fase da vida do narrador.
"lembro" está no presente do indicativo e não relata um fato da cena infantil, mas a postura do narrador ao escrever. Aqui o presente funciona como uma reflexão atual sobre a memória — ele afirma, no momento da narração, que não consegue recordar cores ou quantidades.
Portanto, a primeira forma indica hábito passado; a segunda, comentário/reflexão presente do narrador, justificando a alternativa correta.
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