Questão FC410088
Dialética erística é a arte de discutir, mais precisamente a arte de discutir de modo a vencer, e isso per fas et per nefas (por meios lícitos ou ilícitos). De fato, é possível ter
Morfologia
VUNESP · 2023
Dialética erística é a arte de discutir, mais precisamente a arte de discutir de modo a vencer, e isso per fas et per nefas (por meios lícitos ou ilícitos). De fato, é possível ter razão objetivamente no que diz respeito à coisa mesma, e não tê-la aos olhos dos presentes e inclusive aos próprios olhos.
Assim ocorre, por exemplo, quando o adversário refuta minha prova e isso é tomado como uma refutação da tese mesma, em cujo favor se poderiam aduzir outras provas. Neste caso, naturalmente, a situação do adversário é inversa àquela que mencionamos: ele parece ter razão, ainda que objetivamente não a tenha. Por conseguinte, são duas coisas distintas a verdade objetiva de uma proposição e sua validade na aprovação dos contendores e ouvintes. A esta última é que a dialética se refere.
Donde provém isso? Da perversidade natural do gênero humano. Se esta não existisse, se no nosso fundo fôssemos honestos, em todo debate tentaríamos fazer a verdade aparecer, sem nos preocupar com que ela estivesse conforme à opinião que sustentávamos no começo ou com a do outro; isso seria indiferente ou, em todo caso, de importância muito secundária. No entanto, é isso o que se torna o principal.
Nossa vaidade congênita, especialmente suscetível em tudo o que diz respeito à capacidade intelectual, não quer aceitar que aquilo que num primeiro momento sustentávamos como verdadeiro se mostre falso, e verdadeiro aquilo que o adversário sustentava. Portanto, cada um deveria preocupar-se unicamente em formular juízos verdadeiros. Para isso, deveria pensar primeiro e falar depois. Mas, na maioria das pessoas, à vaidade inata associa-se a verborragia e uma inata deslealdade. Falam antes de ter pensado e, quando, depois, se dão conta de que sua afirmativa era falsa e não tinham razão, pretendem que pareça como se fosse ao contrário. O interesse pela verdade, que na maior parte dos casos deveria ser o único motivo para sustentar o que foi afirmado como verdade, cede por completo o passo ao interesse da vaidade.
O verdadeiro tem de parecer falso e o falso, verdadeiro.
(Arthur Schopenhauer. Como vencer um debate sem precisar ter razão)
Na passagem – Donde provém isso? Da perversidade natural do gênero humano. Se esta não existisse, se no nosso fundo fôssemos honestos, em todo debate tentaríamos fazer a verdade aparecer, sem nos preocupar com que ela estivesse conforme à opinião que sustentávamos no começo ou com a do outro; isso seria indiferente ou, em todo caso, de importância muito secundária. – a construção do raciocínio, no trecho destacado, é centrada na relação
- de causa e efeito, expressando-se predominantemente com o emprego de formas verbais no futuro do presente e no pretérito.
- entre hipótese e conclusão, expressando-se predominantemente com o emprego de formas verbais no imperfeito e no futuro do pretérito.
- de condição e modo, expressando-se predominantemente com o emprego de formas verbais no imperfeito e no presente.
- entre condição e comparação, expressando-se predominantemente com o emprego de formas verbais no presente e no infinitivo.
- entre suposição e resultado, expressando-se predominantemente com o emprego de formas verbais no pretérito perfeito e no futuro do pretérito.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O trecho destacado estabelece uma relação de hipótese e conclusão: imagina-se uma situação contrafactual e apresenta-se o resultado esperado nessa hipótese.
As formas verbais corroboram essa estrutura. As orações condicionais — «Se esta não existisse, se no nosso fundo fôssemos honestos» — usam o pretérito imperfeito do modo subjuntivo (existisse, fôssemos), marcando a suposição.
A conclusão — «tentaríamos fazer a verdade aparecer» — aparece no futuro do pretérito (condicional: tentaríamos), indicando o resultado hipotético. Há ainda verbos no pretérito imperfeito do indicativo (sustentávamos) e infinitivos (preocupar, aparecer) que completam o contexto discursivo.
Portanto, a construção é centrada em hipótese → conclusão, exprimida predominantemente pelo imperfeito (subjuntivo/indicativo) e pelo futuro do pretérito.
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