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Questão FC410107

– E o que fazes quando te assaltam essas dores?

Morfologia

VUNESP · 2023

O menino que escrevia versos

 

– Ele escreve versos!

 

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico perguntou:

 

– Há antecedentes na família?

 

– Desculpe, doutor?

 

O médico explicou em pormenores. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

 

– Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol!

 

Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol.

 

A oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo.

 

Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejar, a autoria do feito.

 

O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola.

 

Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. Que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem fica em ponto morto?

 

Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu que ele fosse examinado.

 

– O médico que faça revisão geral, parte mecânica e elétrica. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões, lhe espreitassem o nível do óleo. O que urgia era terminar com aquela vergonha familiar.

 

Olhos baixos, o médico escutou tudo e aviava a receita.

 

Com enfado, dirigiu-se ao menino:

 

– Dói-te alguma coisa?

 

– Dói-me a vida, doutor.

 

A resposta o surpreendeu.

 

– E o que fazes quando te assaltam essas dores?

 

– O que melhor sei fazer, excelência, sonhar.

 

Serafina desferiu um tapa na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, por quê? Perto o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.

 

O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. O menino exemplificaria os sonhos, mas o doutor interrompeu-o dizendo que não tinha tempo e que ali não era uma clínica psiquiátrica.

 

A mãe, desesperada, pediu que o doutor olhasse o caderninho dos versos, a ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e propôs que voltasse na próxima semana.

 

Na semana seguinte, o médico, sisudo, perguntou ao menino se ele havia escrito mais versos.

 

– Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse, apontando um novo caderninho.

 

O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente. Ele assumiria as despesas, o menino ficaria em sua clínica para o tratamento.

 

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:

 

–Não pare, meu filho. Continue lendo...

 

(Mia Couto, O menino que escrevia versos. Adaptado)

 

Observe a frase:

 

– E o que fazes quando te assaltam essas dores?

 

Alterando-se o tratamento para a terceira pessoa, e colocando- se o verbo no tempo passado, tem-se, corretamente:

  1. – E o que fazíeis quando vos assaltavam essas dores?
  2. – E o que fazia quando lhe assaltavam essas dores?
  3. – E o que fizeste quando te assaltavam essas dores?
  4. – E o que fará quando lhe assaltam essas dores?
  5. – E o que fazias quando te assaltaram essas dores?
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Gabarito

B

Comentário do professor

Para passar a frase da segunda pessoa do presente para a terceira pessoa no passado, trocam-se o verbo e o pronome oblíquo por formas de 3.ª pessoa e emprega‑se um tempo passado adequado. Assim, “fazes” (2.ª pessoa do presente) torna‑se “fazia” (3.ª pessoa do singular, pretérito imperfeito), indicando ação habitual ou recorrente.

O complemento “te assaltam essas dores” exige concordância: “essas dores” é sujeito plural, daí o verbo no plural “assaltavam” (3.ª pessoa do plural, pretérito imperfeito). O pronome “te” (2.ª pessoa) é substituído por “lhe”, pronome oblíquo átono de 3.ª pessoa, que exerce função de objeto indireto.

Logo, “E o que fazia quando lhe assaltavam essas dores?” preserva sentido e concordância, razão pela qual a alternativa B é correta.

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