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Questão FC410111

A bolsa – I / O achado Jamais em minha vida achei na rua ou em qualquer parte do globo um objeto qualquer. Existem pessoas que acham carteiras, joias, promissórias, animais de luxo

Morfologia

VUNESP · 2023

A bolsa – I / O achado

 

Jamais em minha vida achei na rua ou em qualquer parte do globo um objeto qualquer. Existem pessoas que acham carteiras, joias, promissórias, animais de luxo, e sei de um polonês que achou um piano na praia do Leblon, inspirando o conto célebre de Aníbal Machado. Mas este escriba, nada: nem um botão.

 

Por isso, grande foi a minha emoção ao deparar, no assento do coletivo, com uma bolsa preta de senhora. O destino me prestava esse pequeno favor: completava minha identificação com o resto da humanidade, que tem sempre para contar uma história de objeto achado; e permitia-me ser útil a alguém, devolvendo o que lhe faria falta.

 

A bolsa pertencia certamente à moça morena que viajara a meu lado, e de que eu vira apenas o perfil. Sentara-se, abrira o livro e mergulhara na leitura. Eu senti vontade de dizer-lhe: “Moça, não faça isso, olhe seus olhos”, mas receei que ela visse em minhas palavras mais do que um cuidado oftalmológico, e abstive-me. Absorta na leitura, ao sair esquecera o objeto, que só me atraiu a atenção quando o lotação já ia longe.

 

Assim, vi-me sozinho com a bolsa na mão. E para evitar que na saída o motorista me interpelasse: “Ei, ó distinto, deixa esse troço aí”, achei prudente envolvê-la no jornal que eu portava. Já percebe o leitor que, a essa altura, minha situação moral era pouco sólida, pois eu procurava esconder do motorista um objeto que não me pertencia, sob o fundamento de que pretendia restituí-lo à dona; como se eu conhecesse essa proprietária mais do que ele, motorista.

 

Assim, embuçada convenientemente a coisa, como algo tenebroso que convinha esquivar à curiosidade pública, paguei com dignidade a passagem e saltei sem impugnação.

 

(Carlos Drummond de Andrade. A bolsa e a vida. Adaptado)

 

Na passagem do parágrafo – ... mas receei que ela visse em minhas palavras mais do que um cuidado oftalmológico, e abstive-me. Absorta na leitura, ao sair esquecera o objeto... –, os termos destacados significam, correta e respectivamente:

  1. afastei-me; arrebatada.
  2. perturbei-me; presa.
  3. controlei-me; animada.
  4. contive-me; distraída.
  5. comovi-me; extasiada.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Na frase, o verbo abstive-me é a 1.ª pessoa do pretérito perfeito do verbo abster‑se, que significa privar‑se ou conter‑se de algo por vontade própria. No contexto — “receei que ela visse... e abstive‑me” — o falante diz que se conteve e não falou. Assim, a equivalência correta é contive‑me (sinônimo de “resisti/abstive‑me de falar”).

Já absorta é adjetivo que qualifica a moça como totalmente envolvida na leitura, alheia ao que a rodeava. Esse estado de imersão implica falta de atenção ao mundo exterior, ou seja, estar distraída.
Portanto, os termos destacados correspondem corretamente a contive‑me; distraída, ambos coerentes semântica e gramaticalmente com o trecho.

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