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Questão FC410121

Leia o texto de Ignácio de Loyola Brandão para responder à questão. A pedra na roda Deixamos Porto Alegre às 8 da manhã. Seriam 300 quilômetros, cerca de quatro horas de viagem atr

Morfologia

VUNESP · 2023

Leia o texto de Ignácio de Loyola Brandão para responder à questão.

 

A pedra na roda

 

Deixamos Porto Alegre às 8 da manhã. Seriam 300 quilômetros, cerca de quatro horas de viagem através de campos e serras. Eram três ônibus que levavam cem escritores, entre romancistas, poetas, professores, linguistas, para um encontro literário em Passo Fundo.

 

A viagem prosseguia bem até o momento que ouvimos um barulho assustador nos pneus traseiros. Como se tivessem explodido e a borracha continuasse a bater no solo. O ônibus parou. Os outros pararam também em solidariedade, para saber o que se passava.

 

Já eram 11h30, tínhamos ainda uma hora e pouco de estrada para a abertura, às 13h, da Jornada Literária, acontece que uma pedra de bom porte se meteu entre os dois pneus traseiros. São rodas duplas e a pedra se enfiou, sabe-se lá como, entre os pneus da direita. Não dava para andar, a pedra rasgaria tudo.

 

Juntaram-se os três motoristas, buscando solução. Apareceram uma marreta, um formão (muito pequeno), uma chave de roda. Os motoristas se revezavam, martelavam de um lado, do outro, de cima para baixo. A pedra, imóvel, para dar o ar da graça e animar, soltou umas lasquinhas que encheram todos de esperanças. Ficou nisso.

 

Poetas, romancista, linguistas, ensaístas, todos deram opiniões estapafúrdias. Escrever um romance parece mais fácil do que arrancar uma pedra da roda.

 

O tempo passou, já tinha sido solicitado o socorro, mas o caminhão ia demorar. Já eram quase 13h quando surgiu um garoto pedalando uma bicicleta. Viu aquele amontoamento, inteirou-se do assunto. Ficou olhando, os motoristas continuavam com as marteladas inúteis. Havia no ar certa desesperança. Como quem não quer nada, o garoto da bicicleta disse: “E se desparafusarem as rodas, será que a pedra não se solta?” Todos se olharam. Os intelectuais sorriram. Os motoristas ficaram perplexos.

 

Foi necessário muito esforço para desrosquear, mas, enfim, as rodas se abriram, a pedra – enorme – caiu. Houve aplausos, alívio. Voltamos ao ônibus, a viagem prosseguiu. Skarmeta* escreveu um curto poema sobre a roda travada – lido, mais tarde, no palco.

 

Cada um de nós, homens do mundo das letras, tem a certeza de que sabe escrever coisas lindas e comoventes. Mas quando uma pedra entra no caminho, não temos a ideia simples e brilhante de desparafusar as rodas, diminuindo a pressão. Talvez na vida possamos aplicar o mesmo método: desapertar um pouco o parafuso, deixar a pedra cair.

 

(Coleção melhores crônicas: Ignácio de Loyola Brandão. Org. Cecília Almeida Salles. Editora Globo. Adaptado)

 

*Antonio Skarmeta é escritor chileno, autor de O carteiro e o poeta.

 

O trecho “Skarmeta escreveu um curto poema sobre a roda travada – lido, mais tarde, no palco” (7o parágrafo) está reescrito de acordo com a norma-padrão e expressa suposição em:

  1. Na certa Skarmeta escreveria um poema sobre a roda travada que fora lido no encontro.
  2. Aliás, Skarmeta escrevera um poema sobre a roda travada que foi lido no encontro.
  3. Possivelmente Skarmeta teria escrito um poema sobre a roda travada que seria lido no encontro.
  4. A saber, Skarmeta tinha escrito um poema sobre a roda travada que será lido no evento.
  5. Talvez Skarmeta escreverá um poema sobre a roda travada que era lido no evento.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Possivelmente indica claramente a ideia de suposição: o enunciado não afirma um fato, apenas admite-o como provável.

A locução teria escrito (futuro do pretérito composto) situa a ação como hipotética em relação ao passado narrado — ou seja, supõe que, naquele contexto, Skarmeta poderia ter escrito o poema.

Já seria lido (futuro do pretérito simples), em voz passiva, expressa a consequência esperada dessa hipótese: caso ele tivesse escrito, o poema estaria destinado a ser lido no encontro.

Em conjunto, o advérbio e as formas verbais trabalham a modalidade epistêmica (juízo de probabilidade), preservando coerência temporal com a narrativa e evitando afirmar o fato como ocorrido.

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