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Questão FC410185

A quem dedicá-la? Como dedicá-la? E o prefácio?

Morfologia

VUNESP · 2021

Para responder a questão, leia a crônica “A obra-prima”, de Lima Barreto, publicada na revista Careta em 25.09.1915.

 

Marco Aurélio de Jesus, dono de um grande talento e senhor de um sólido saber, resolveu certa vez escrever uma obra sobre filologia.

 

Seria, certo, a obra-prima ansiosamente esperada e que daria ao espírito inculto dos brasileiros as noções exatas da língua portuguesa. Trabalhou durante três anos, com esforço e sabiamente. Tinha preparado o seu livro que viria trazer à confusão, à dificuldade de hoje, o saber de amanhã. Era uma obra-prima pelas generalizações e pelos exemplos.

 

A quem dedicá-la? Como dedicá-la? E o prefácio?

 

E Marco Aurélio resolve meditar. Ao fim de igual tempo havia resolvido o difícil problema.

 

A obra seria, segundo o velho hábito, precedida de “duas palavras ao leitor” e levaria, como demonstração de sua submissão intelectual, uma dedicatória.

 

Mas “duas palavras”, quando seriam centenas as que escreveria? Não. E Marco Aurélio contou as “duas palavras” uma a uma. Eram duzentas e uma e, em um lance único, genial, destacou em relevo, ao alto da página “duzentas e uma palavras ao leitor”.

 

E a dedicatória? A dedicatória, como todas as dedicatórias, seria a “pálida homenagem” de seu talento ao espírito amigo que lhe ensinara a pensar…

 

Mas “pálida homenagem”… Professor, autor de um livro de filologia, cair na vulgaridade da expressão comum: “pálida homenagem”? Não. E pensou. E de sua grave meditação, de seu profundo pensamento, saiu a frase límpida, a grande frase que definia a sua ideia da expressão e, num gesto, sulcou o alto da página de oferta com a frase sublime: “lívida homenagem do autor”…

 

Está aí como um grande gramático faz uma obra-prima. Leiam-na e verão como a coisa é bela.

 

(Sátiras e outras subversões, 2016.)

 

O cronista narra uma série de fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela forma verbal sublinhada em

  1. “Eram duzentas e uma e, em um lance único, genial, destacou em relevo, ao alto da página ‘duzentas e uma palavras ao leitor’.” (6º parágrafo)
  2. “A obra seria, segundo o velho hábito, precedida de ‘duas palavras ao leitor’ e levaria, como demonstração de sua submissão intelectual, uma dedicatória.” (5º parágrafo)
  3. “A dedicatória, como todas as dedicatórias, seria a ‘pálida homenagem’ de seu talento ao espírito amigo que lhe ensinara a pensar...” (7º parágrafo)
  4. “E Marco Aurélio resolve meditar.” (4º parágrafo)
  5. “Leiam-na e verão como a coisa é bela.” (9º parágrafo)
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A forma ensinara indica, no contexto, uma ação que já havia ocorrido antes do tempo narrativo em que se descreve a dedicatória.


Trata‑se do pretérito mais-que-perfeito do indicativo, tempo que expressa anterioridade em relação a outro fato passado.


No trecho, a narrativa está situada no passado (Marco Aurélio prepara a dedicatória); o verbo ensinara registra que o ato de ensinar pelo “espírito amigo” ocorreu em momento anterior a esse passado.


Assim, a escolha de ensinara esclarece a sequência temporal: primeiro o ensino; depois, no passado narrado, a dedicatória. Por isso a alternativa assinalada é a correta.

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