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Questão FC410207

Meus tempos de menino De cedo, aprendi a subir ladeira e a pegar bonde andando. Posso dizer, com humildade orgulhosa, que tive morros e bondes no meu tempo de menino. Eu conheci, l

Morfologia

VUNESP · 2021

Meus tempos de menino

 

De cedo, aprendi a subir ladeira e a pegar bonde andando. Posso dizer, com humildade orgulhosa, que tive morros e bondes no meu tempo de menino.

 

Eu conheci, lá longe, o sol de montanha no morro da Geada, lá pelos lados do Jaguaré, de onde se avistava, mais à direita, um ponto meio preto, quase azulado, tão vistoso – o pico do Jaraguá. Ah, tempos... o rio Tietê, como o Pinheiros, dava peixe, a gente atravessava os dois de balsa ou de bote, que enchiam o coração das velhas de medo e o deste aqui de um tropel.

 

Nossa pobreza não era envergonhada. Ainda não fora substituída pela miséria nos morros pobres, como o da Geada. Tínhamos um par de sapatos para o domingo. Só. A semana tocada de tamancos ou de pés no chão.

 

Não há lembrança que me chegue sem os gostos. Será difícil esquecer, lá no morro, o gosto de fel do chá para os rins, chá de carquejo empurrado goela abaixo pelas mãos da minha bisavó Júlia.

 

Mas, se o chá de carquejo me descia brabo pela goela, como me é difícil esquecer o gosto bom do leite quente na caneca esmaltada estirada, amorosamente, pelas mãos da minha avó Nair. Sou, assim, homem de sorte. De pequeno, paparicado por avó, bisavó e doze tios e tias-avós. Muita sorte, inda agora tenho avó viva. É Nair, dona Nair, a que sabe fazer, até hoje, aos oitenta e três anos, uns olhos azuis e sararás tão femininos e bons fora da conta viajarem para os netos.

 

Nenhum de nós sabia dizer a palavra solidariedade. Mas, na casa de outro tio, o nosso tio Otacílio, criavam-se até filhos dos outros, e estou certo de que nosso coração era simples, espichado e melhor. Não desandávamos a reclamar da vida, não nos hostilizávamos feito possessos, tocávamos a pé pra baixo e pra cima e, quando um se encontrava com o outro, a gente não dizia: “Oi!”. A gente se saudava, largo e profundo:

 

– Ô, batuta!

 

(João Antônio. Boa companhia: crônicas. Organização, introdução e notas

Humberto Werneck. São Paulo: Companhia das letras, 2005. Adaptado)

 

Em conformidade com a norma-padrão da língua portuguesa, a forma verbal destacada na frase “Ainda não fora substituída pela miséria...” encontra equivalência na forma composta

  1. tinha sido.
  2. tem sido.
  3. tiver sido.
  4. tivesse sido.
  5. tenha sido.
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Gabarito

A

Comentário do professor

“Fora” é forma do pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo. Sua equivalência na forma composta é tinha sido, que expressa a mesma ideia temporal por construção perifrástica.

A forma tinha sido é composta pelo verbo auxiliar ter no pretérito imperfeito (“tinha”) + o particípio passado sido. Essa combinação marca uma ação anterior a outro fato passado.

Em termos de significado, ambas indicam anterioridade: algo já acontecera antes de outro instante passado. A escolha entre fora e tinha sido diz mais respeito a registro — o primeiro é mais culto/literário; o segundo, mais comum e corrente.

Ex.: “Ainda não fora substituída…” = “Ainda não tinha sido substituída…”

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