Questão FC410227
Noite de autógrafos Escritores, principalmente de ficção, mentem muito – ou não seriam escritores de ficção. Mas ninguém mente mais que escritores em campanha de lançamento de um l
Morfologia
VUNESP · 2020
Noite de autógrafos
Escritores, principalmente de ficção, mentem muito – ou não seriam escritores de ficção. Mas ninguém mente mais que escritores em campanha de lançamento de um livro, não importa o gênero. A noite de autógrafos, por exemplo, é um terreno fértil para tal autor delirar e sair dizendo, no dia seguinte, que assinou muito mais livros do que os modestos 15 ou 20 que autografou na vida real.
Minha história favorita é a da bela romancista bissexta que, há anos, teria autografado 2 000 livros de uma sentada, numa livraria em São Paulo. Já com uma certa prática na matéria, fiz os cálculos. Dois mil livros? Vamos supor que a autora tenha recebido cada leitor à mesa, aceitado o seu beijo, trocado com ele uma única e simpática frase, deixado fotografar-se abraçada ao dito, escrito algo bem simples, assinado, devolvido o livro, aceitado outro beijo e dito tchau – e tudo isso em 1 minuto cravado.
Significa que os 2 000 livros lhe terão tomado 2 000 minutos. Ou seja, ela ficou sentada por 33 horas e 20 minutos, assinando sem parar. Nem os megassellers* americanos que aportam aqui e carimbam os livros em vez de assiná-los conseguiriam tal proeza.
Já o autor mais consciencioso, em meio à sessão, dá uma espiada na fila, constata que ela está muito comprida e tenta apressar o processo. Mas nem sempre é possível, porque quem vai a tais eventos quer mais que um autógrafo – quer também trocar uma palavra com o autor e sentir, ao vivo, se ele se parece com o que escreve.
É um momento bonito esse encontro do escritor com seus leitores. E não importa que tenha sido uma noite de 15 ou 20 autógrafos – ou de imaginários 2 000.
(Ruy Castro. A arte de querer bem. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2018, p. 59-60)
* megassellers: escritores que atingem a marca de milhões de exemplares vendidos.
A ideia presente na expressão verbal destacada na passagem “Minha história favorita é a da bela romancista bissexta que, há anos, teria autografado 2 000 livros…” também pode ser corretamente identificada na expressão verbal destacada em:
- … é um terreno fértil para tal autor delirar e sair dizendo, no dia seguinte, que assinou muito mais livros…
- Ou seja, ela ficou sentada por 33 horas e 20 minutos, assinando sem parar.
- … americanos que aportam aqui e carimbam os livros em vez de assiná-los conseguiriam tal proeza.
- … dá uma espiada na fila, constata que ela está muito comprida e tenta apressar o processo.
- … quer também trocar uma palavra com o autor e sentir, ao vivo, se ele se parece com o que escreve.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
"Conseguiriam" funciona como forma do futuro do pretérito simples e, no contexto, expressa hipótese/possibilidade referente a um fato passado — exatamente a mesma noção de incerteza contida em "teria autografado" (futuro do pretérito composto).
O narrador sugere, sem provar, que a romancista talvez tivesse autografado 2 000 livros; na sequência, afirma que nem mesmo os megassellers americanos, que só carimbam volumes, conseguiriam realizar tal façanha. Assim, conseguiriam marca conjectura sobre a capacidade/ocorrência no passado, espelhando a ideia de suposição presente em "teria autografado".
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