Questão FC410259
─ Morder a tampa significa alguma coisa?
Morfologia
VUNESP · 2019
Visitando a psicóloga
No fim do Ensino Médio, Fabrício vivia brigando com os colegas, desafiando os professores, respondendo desaforado aos pais. Óbvio que foi forçado a visitar a psicóloga da escola. Prometeu a si mesmo que lacraria a boca(A), ficaria calado durante a consulta inteira(B), faria terrorismo com a quietude. Não achava justo ser obrigado a se analisar e ainda mais numa época em que a terapia estava vinculada preconceituosamente à loucura.
Fabrício se ajeitou na poltrona com o estojo e caderno debaixo do braço e a indisposição absoluta de colaborar com a psicóloga. Mas ela não questionou nada(C), e o silêncio inesperado dela foi enervando Fabrício. Ela o observava com interesse, e ele querendo cada vez mais se esconder. Quando alguém permanece quieto muito tempo em nossa frente é como encarar um espelho e o tamanho das dúvidas. Ela o provocava não o provocando, ela o emparedava abrindo todas as portas(D). Aquela liberdade assustadora de não ser cobrado a participar o aprisionava.
Fabrício mexeu no estojo para se distrair. Ela perguntou se ele poderia emprestar-lhe uma caneta. Ele pegou uma Bic azul. A psicóloga viu que a tampa estava mordida. Olhou com carinho e comentou:
─ Enquanto não morder o tubo, está tudo bem.
Ele riu de nervoso e demonstrou curiosidade.
─ Morder a tampa significa alguma coisa?
─ Significa que não fecha as conversas, que foge das discussões com medo de dizer a verdade, que reprime o desejo e vira as costas(E) remoendo sozinho as suas frustrações e decepções, jamais repartindo a sua verdadeira opinião.
Fabrício não revelou coisa alguma durante uma hora do encontro, mas ela o decifrou inteiramente apenas analisando a tampa mordida da caneta. Uma mera, idiota e banal tampinha iluminou o seu comportamento.
A partir daquele dia, Fabrício nunca mais subestimou a psicologia e cuidou para morder somente a insossa borracha nos momentos de maior ansiedade. Aprendeu que o que se sente ou se deixa de sentir está impresso nos mínimos gestos.
(Fabrício Carpinejar. Amizade é também amor. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2017. Adaptado)
A alternativa cuja forma verbal em destaque está no tempo futuro é observada em:
- Prometeu a si mesmo que lacraria a boca...
- ... ficaria calado durante a consulta inteira...
- Mas ela não questionou nada...
- ... ela o emparedava abrindo todas as portas.
- ... reprime o desejo e vira as costas...
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Gabarito
B
Comentário do professor
A forma verbal ficaria, em "ficaria calado durante a consulta inteira", está no futuro do pretérito do indicativo.
Esse tempo verbal indica uma ação projetada em relação a um momento passado ou um evento hipotético: traduz a ideia de "viria a acontecer" ou, em termos práticos, "would" do inglês.
No contexto da frase, há um pretérito ("prometeu") e a oração subordinada apresenta a atitude que se imaginava ocorrer depois desse momento passado — logo, usa‑se o futuro do pretérito para marcar essa anterioridade relativa e o caráter não realizado/condicional da ação.
Morfológicamente, forma‑se sobre o infinitivo (ficar) com a desinência -ia, indicando o valor temporal e modal descrito acima.
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