Questão FC410279
A ilusão da felicidade Do alto de seus mais de 80 anos e sempre com um sorriso calmo e uma dose de ironia, a tia de Leila, Dona Darcy, costuma dizer aos que gostam de se queixar da
Morfologia
VUNESP · 2019
A ilusão da felicidade
Do alto de seus mais de 80 anos e sempre com um sorriso calmo e uma dose de ironia, a tia de Leila, Dona Darcy, costuma dizer aos que gostam de se queixar da vida: “Aqui ainda não é o céu, não, gente. Aqui é a Terra. O céu vem depois”.
Leila se lembra, às vezes, das palavras da tia quando vê pessoas buscando uma felicidade ideal: elas também estão procurando o céu na Terra. Achar que a vida pode ser um mar de rosas é correr o risco de se frustrar a cada meia hora.
O problema é que essa corrida pela felicidade é estimulada de todas as formas pela cultura consumista em que estamos mergulhados até a cabeça. No mundo onde tudo se compra, a felicidade também virou produto, e passamos a acreditar na possibilidade absurda de adquiri-la ou de nos apossarmos dela como se fosse uma mercadoria qualquer. Não é: felicidade não se compra, não se encomenda, não se empresta. Somos felizes quando conseguimos, quando a vida permite. E sentir-se infeliz não é nenhum sinal de incompetência ou de baixo poder aquisitivo. Basta existir para estar sujeito à infelicidade. Ou basta não estar anestesiado.
As pessoas se esquecem da natureza da felicidade e da precariedade da nossa própria natureza. Muitos querem ser felizes a qualquer preço. Esperam que os filhos sejam felizes, que o trabalho os faça muito felizes, que os romances e casamentos sejam eternamente felizes.
Melhor seria encolher as expectativas. Se os filhos tiverem momentos felizes, pode-se levantar as mãos para o céu. Se os empregos proporcionarem alguma realização e trouxerem eventuais alegrias, já estarão de bom tamanho. E se os romances e casamentos permitirem que as pessoas vivam instantes prazerosos, se as fizerem rir de vez em quando, se permitirem o crescimento do outro sem opressão, as pessoas podem se dar por satisfeitas.
Considerar que a felicidade é céu sem nuvens e que somos obrigados a encontrar a felicidade plena porque tudo hoje prega o direito, ou o dever, de ser feliz é afastar cada vez mais a felicidade possível. A obrigação de ser feliz é uma bobagem. A de ser muito feliz, uma loucura. Mas na cultura do muito, as pessoas acabam caindo nessa cilada.
(Leila Ferreira. Viver não dói. São Paulo: Globo, 2013. Adaptado)
Assinale a alternativa em que o verbo destacado está no tempo passado.
- … costuma dizer aos que gostam de se queixar… (1º parágrafo)
- … a felicidade também virou produto… (3º parágrafo)
- Muitos querem ser felizes a qualquer preço. (4º parágrafo)
- … já estarão de bom tamanho. (5º parágrafo)
- … as pessoas acabam caindo nessa cilada. (6º parágrafo)
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Gabarito
B
Comentário do professor
Na oração "No mundo onde tudo se compra, a felicidade também virou produto." o verbo virou indica uma ação já concluída.
Morphologicamente, trata-se do pretérito perfeito do indicativo, flexionado na terceira pessoa do singular. O sufixo "-ou" é marca típica do pretérito perfeito na 1ª conjugação (-ar) para essa pessoa, sinalizando que a transformação ocorreu no passado e está consumada.
Funcionalmente, o uso de virou comunica que a felicidade deixou de ser apenas um estado e passou a ser entendida como produto — fato ocorrido anteriormente ao momento da fala.
Assim, a forma verbal expressa clareza temporal: ação passada e concluída, caracterizando corretamente a alternativa correta.
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