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Vida de clichê O jornalista Humberto Werneck lançou seu O pai dos burros – Dicionário de lugares-comuns e frases feitas. Dono de um dos grandes textos da imprensa brasileira, ele p

Morfologia

VUNESP · 2019

Vida de clichê


O jornalista Humberto Werneck lançou seu O pai dos burros – Dicionário de lugares-comuns e frases feitas. Dono de um dos grandes textos da imprensa brasileira, ele passou quase 40 anos colecionando os clichês que sujam as páginas de jornais, revistas, livros. Aquelas palavras que, de tanto ouvi-las, são as primeiras a aparecer na nossa cabeça, na ponta dos nossos dedos. Foram ditas muitas vezes antes, não causarão nenhuma reação inesperada. Não provocarão nada, nem de bom, nem de ruim.


Por que então os clichês são tão populares? Porque são seguros, é o que disseram gente brilhante como H.L. Mencken e Hannah Arendt. Ao repetir uma ideia velha, o que foi dito e redito por tantos antes de nós, nada sai do nosso controle. Também nada acontece. Uma nova ideia é sempre um risco, não sabemos aonde ela vai nos levar. E, na falta de ousadia, o que nos sobra é medo.


Li todas as 208 páginas, os 4.640 clichês, para conhecer as palavras das quais deveria fugir. Desde então, adquiri um incômodo que não sai de mim. Ao colecionar lugares-comuns, Werneck espera nos instigar a pensar antes de sair escrevendo – ou falando. Caso o jogo de palavras venha muito fácil, é porque já foi dito tantas vezes que abriu um escaninho no nosso cérebro. Basta apertar uma tecla invisível e sai de lá pronto. Não custa nada, nem mesmo um esforço mínimo. “O tempo é o senhor da razão”, “a esperança é a última que morre”, “nunca antes na história deste país”...


Clichês são letra morta. Palavras que nasceram luminosas e morreram pela repetição, já que a morte de uma palavra é o seu esvaziamento de sentido. Agarrar-se aos lugares-comuns para não ousar arriscar-se ao novo é matar a possibilidade antes de ela existir. Parece-me que os lugares-comuns vão muito além das palavras. A gente pode transformar nossa vida inteira num clichê. Não basta apenas pensar antes de escrever, na tentativa de criar algo nosso. É preciso pensar para viver algo nosso – antes de repetir a vida de outros.


(Eliane Brum. A menina quebrada e outras colunas de Eliane Brum. Porto Alegre, Arquipélago Editorial, 2013, Adaptado)


Ao substituir-se pelo termo “Se” o que está destacado em – Caso o jogo de palavras venha muito fácil, é porque já foi dito tantas vezes que abriu um escaninho no nosso cérebro. –, o verbo “vir” deve flexionar-se, conforme a norma-padrão da língua, em:

  1. vêm.
  2. vir.
  3. vier.
  4. for.
  5. fosse.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Ao substituir “Caso” por “Se”, estabelece‑se uma condição que pode ocorrer no futuro; nesse contexto, a norma-padrão exige o uso do futuro do subjuntivo. Esse tempo verbal é o habitual quando a condição expressa por se remete a algo incerto e possível adiante.


O verbo vir é irregular; sua forma no futuro do subjuntivo não é o infinitivo “vir”, mas sim “vier”. Assim, a frase correta fica: “Se o jogo de palavras vier muito fácil...”, indicando a hipótese futura de que isso aconteça.


Portanto, vier é a flexão exigida pela conjunção condicional e pela irregularidade do verbo.

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